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	<title>Paulo Mercadante</title>
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	<description>Experiência e reflexão</description>
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		<title>Paulo Mercadante</title>
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		<title>Os Degraus das Missões</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Nov 2009 18:11:02 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[Atlântico, 1-10, 1975, 4ª feira.
Às 22h30 embarquei e nos mandamos para o outro lado do mundo. Viagem suave, diria agradável, lendo e refletindo. Talvez tenha deixado o meu escritório em ordem, pois no caminhar para dezembro as coisas se acomodam no Brasil em espetáculo de dolce far niente.
Hannibal me telefonara há dez dias, convidando-me para [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=430&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;">Atlântico, 1-10, 1975, 4ª feira.</p>
<p style="text-align:justify;">Às 22h30 embarquei e nos mandamos para o outro lado do mundo. Viagem suave, diria agradável, lendo e refletindo. Talvez tenha deixado o meu escritório em ordem, pois no caminhar para dezembro as coisas se acomodam no Brasil em espetáculo de <em>dolce far niente</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Hannibal me telefonara há dez dias, convidando-me para o Encontro em Madrid, pedindo-me a presença. Esclarecia que do Ensino não fugisse por motivo de afazeres. O melhor argumento consistia em oportunidade de ouvir a propósito a sábia palavra de Hermínia. Meu trabalho prometido há algum tempo dizia respeito a Mircea Eliade ou, se fosse melhor, ofertasse alguma reflexão sobre a natureza do homem. Enfim,  fixava-se ela no <em>Pagoyum</em>, como é conhecido o terceiro livro que trata do <em>Ente Naturali.</em></p>
<p style="text-align:justify;">A vivência<em> </em>da<em> </em>Metapsicologia em minha vida até então consistira em retirar, sem avisar meu pai, livros para leitura, em sua Biblioteca. Vigilante quanto à minha formação, advertiu-me certa feita de que havia relação razoável entre a fase juvenil e os assuntos a serem perquiridos.</p>
<p style="text-align:justify;">Queria dizer que era cedo a fim de que pudesse entender autores como Carlos Richet, Soudre, mesmo Lombroso, em temas como aqueles que me entrigaram, relativos à Josefina Paladino.</p>
<p style="text-align:justify;">Creio mesmo que meu interesse se deu quando o menino Jurandy, em Alvorada, distrito de Carangola, acordou certa manhã sem entender palavra alguma em português, falando correntemente em francês.</p>
<p style="text-align:justify;">A família Ferreira levou naturalmente a criança aos médicos que nada disseram sobre o fato, recomendando que o trouxessem ao Rio de Janeiro.</p>
<p style="text-align:justify;">Aqui os doutores o examinaram e ficaram surpresos diante da pronúncia correta do idioma. Nada a fazer.</p>
<p style="text-align:justify;">Argumento que hoje compreendo em razão da complexidade do fenômeno e por fim, ao ignorarem o episódio de G. Paladino, só resolvido, segundo a única versão, por hipnose.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu não confiava nessa disciplina porque, por experiência, sabia da comunicação telepática entre o ator e o paciente. Meu amigo Karl Weissmann, em livro sobre a matéria, acatava o mesmo ponto de vista de que a sugerência era como misteriosa ordem que vinha inserida no modo de abordagem à relação inicial.</p>
<p style="text-align:justify;">Não havia exceção entre os ingleses, talvez mau exemplo, mas nos lembremos do que ocorrera com Maurice Maeterlinck, e no Brasil com o escritor e poeta Bittencourt Sampaio, que só trouxe resultados no acatamento religioso ao espiritismo.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas o tema não seria, a respeito e sim acerca de Mircea e síntese de seus trabalhos.</p>
<p style="text-align:justify;">Bem, concluía, prometera à Sra Niomar Sodré ir até Paris para expor o andamento da quebra de seu matutino <em>Correio da Manhã</em></p>
<p style="text-align:justify;">Às cinco horas, em Paris, batia à Gerência do Madeleine Palace, e fui às chamadas locais após saber as notícias de casa. Em verdade, tínhamos chegado ao Orly um quarto depois das l5 horas. A escala em Lisboa havia atrasado a viagem sem qualquer explicação.</p>
<p style="text-align:justify;">Jantamos no <em>Bar des Theatres</em> com minhas duas clientes expondo-lhes eu o andamento das causas. A exigência da jornalista sempre era o ponto de partida para a estratégia do bom êxito na empreitada judiciária: seus funcionários não poderiam ser prejudicados em único centavo.</p>
<p style="text-align:justify;">Era o imperativo categórico que a guiava naquela conjuntura. Mulher admirável, dirigida por ética de responsabilidade, admirada pelas amigas tanto as de Paris, famosas pela beleza e compostura, quanto aos amigos do Rio e São Paulo. Osvaldo Peralva, diretor, Newton Rodrigues, chefe da Redação, Gilberto Paim, do Suplemento Econômico, Paulo Francis e Álvaro Lins, editorialistas, o Ministro Nascimento Silva, conselheiro.</p>
<p style="text-align:justify;">No ambiente tranqüilo do restaurante, minha explicação foi breve e sem formalismo jurídico. À tentativa de tansferir aos <em>Irmãos Bobagens</em>, que, em rescisão abrupta lhes devolveram o matutino, foram exigidas as obrigações fiscais e previdenciárias sob pena de execução. Os credores quirografários agiram honestamente e as composições se efetuaram judicialmente em função dos direitos trabalhistas.</p>
<p style="text-align:justify;">O sistema militar, por seu executivo, não fez pressão qualquer junto ao Judiciário no sentido de perseguição ideológica, toda a tramitação era dirigida sem preconceito do ponto de vista exageradamente liberal que D. Niomar Muniz Sodré Bittencourt imprimira à sua orientação.</p>
<p style="text-align:justify;">Quanto à minha outra cliente, tudo fora resolvido com facilidade decorrente da citação por correio, já concedida a liminar.</p>
<p style="text-align:justify;">Já à noite passamos à recepção dada por brasileira residente em Vendôme, à direita de quem passa pela rua Castigliani. Quanta coisa aprendi, então, sobre a fase histórica do Estado Novo. Vargas chegara em 1930, vindo do Sul, não só com aventureiros, também com criaturas sagazes e cultas, desde Oswaldo Aranha, Simões Lopes, Francisco Campos e o que havia de melhor entre os tenentes do Forte de Copacabana e militares da nova geração da estatura de Ernesto Geisel e Juracy Magalhães. As mulheres elegantes, belas e inteligentes desfilavam discretamente pela passarela do cassino Atlântico, observando, pesquisando, brilhando, enfim, como Adalgisa Nery e outras imperatrizes.</p>
<p style="text-align:justify;">O Presidente Vargas, como também era chamado, jamais comparecia, salvo para ouvir uma ou outra cantora estrangeira.</p>
<p>A maioria dos olhos voltava-se sempre em direção à Aimée de Heeren, nascida Sotto Mayor, a grande paixão de Getúlio e Assis Chateubriand.</p>
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		<title>O paradoxo dos fusos-horários</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Oct 2009 17:26:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[Atlântico, 20.6.75. 6ª feira.
Despeço-me, mais uma vez, de Portugal. Não me foi possível rever o Minho, estar com Luis Carlos, Conceição e irmãs, menos ainda de passar por Leça de Balio a fim de ouvir o silêncio da noite.
O giro pela cidade muda com os amigos do Porto, torna-se a perspectiva de outro tempo posta [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=426&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;"><strong>Atlântico, 20.6.75. 6ª feira.</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Despeço-me, mais uma vez, de Portugal. Não me foi possível rever o Minho, estar com Luis Carlos, Conceição e irmãs, menos ainda de passar por Leça de Balio a fim de ouvir o silêncio da noite.</p>
<p style="text-align:justify;">O giro pela cidade muda com os amigos do Porto, torna-se a perspectiva de outro tempo posta no futuro. Onde estará o planeta em seu caminho?</p>
<p style="text-align:justify;">A despedida de Lisboa sempre se depara com o Chiado, a Brasileira, a travessia, afinal para dar o adeus à Praça de onde Fernando Pessoa seguiu para esquecer Lisboa “com as metafísicas perdidas nos cantos de cafés de toda a parte”.</p>
<p style="text-align:justify;">Então, sem projeto, subi e subi à cata dos bares antigos e dobrei à direita para descer até o solo da Catedral atingida pelo terremoto. Estava sem companhia a lembrar do tempo de guerra, de Lisboa com Salazar, orando, por certo indeciso se devia ou não, em proteção dos nossos navios mercantes, ceder espaço em Ponta Delgada a fim de se varrerem os submarinos alemães do Atlântico.</p>
<p style="text-align:justify;">Abaixei-me para apoderar-me de pequeno bloco com desbotado sinal de desenho, ali, provavelmente há mais de duzentos anos.</p>
<p style="text-align:justify;">Não mais o deixei e pessoa alguma havia naquele vazio do passado que pudesse tê-lo como lembrança. Confundia-me em dois planos do tempo, esquecido de meu parceiro a perguntar-me o que eram aquelas meias ruínas.</p>
<p style="text-align:justify;">Um quarteirão além da atual Santa Casa, o bar com pessoas sentadas, a beberem o terrível conhaque lusitano, nada sabiam e, no entanto, abrigava o poeta naquelas noites frias do decênio de vinte.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim correram a manhã e parte da tarde. Encontrando-me com Michael Fields no saguão do Tivoli, disse-me ele que eu me atrasara hora e meia para o encontro, mas que havia tempo. Eram três horas quando chegamos ao Pub em companhia de Amaral de Sampaio, sempre atento aos acontecimentos políticos.</p>
<p style="text-align:justify;">Desse modo, o dia avançava tanto na rotação quanto na translação. Era preciso arrumar as malas, despedir-me de Ângelo de Almeida, agradecer mais uma vez o jantar de ontem no Casino Estoril, telefonar para Ana Elisa.</p>
<p style="text-align:justify;">Apesar do cansaço, introduzi em minha viagem, por três horas seguidas, o exercício do self-rembering uma vez que fora intenso o passeio e minhas anotações no Diário são sempre garranchos porque feitas à noite.</p>
<p style="text-align:justify;">Com relação a meu livro – Portugal-Ano Zero – concluí que estivera certo em não considerar válida a possibilidade de resultado comunista em sua tentativa de fingir-se propenso para acatar o sistema democrático.</p>
<p style="text-align:justify;">Tudo se acomodaria por duas razões com as quais Ângelo acordara: Ao norte, forças contrárias, tanto populares quanto não, opunham-se ao comunismo e poderiam apenas suportar a experiência da social-democracia do modelo inglês; a influência política de Mário Soares seria apaziguada por sua prudência, e marxista, como se declarava, não se esquecendo de sua ambição política.</p>
<p style="text-align:justify;">Por fim, o tradicionalismo português, invencível em termos cristãos e moderados.</p>
<p style="text-align:justify;">O vôo, irregular, confundindo-me à noite com o malabarismo dos fusos horários. Nele, a gente sente a relatividade do tempo, pois, ora, é meia noite cá no Atlântico, e no Rio Ana Elisa e meus filhos estão a jantar, o que já fiz há quatro horas, cabendo-me considerar que pela manhã irei acordá-los cedo em caso de chegada a casa.</p>
<p style="text-align:justify;">Por conseguinte, não sigo para o destino do presente e, sim, ao passado.                Eis o paradoxo do movimento, revelando a sua universalidade e sua presença em todos os fenômenos naturais.</p>
<p style="text-align:justify;">Retornamos aos gregos: o movimento como realidade ontológica.</p>
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		<title>Despedida do Belo.</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Oct 2009 17:50:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>
		<category><![CDATA[paulo mercadante]]></category>
		<category><![CDATA[portugal]]></category>
		<category><![CDATA[sintra]]></category>

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		<description><![CDATA[Sintra,19.6.75. 5ªfeira.
Levanto-me cedo e tomo o café da manhã antes de subir até o Castelo dos Mouros.
Vestígios do passado que apenas se percebem por exercícios imaginários, uma vez que desde o Século XII o caminho percorrido era simples picadão, provavelmente disfarçado. Das referências clássicas, extraídas dos esforços de D. Afonso Henriques, pouca certeza obtemos de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=418&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;">Sintra,19.6.75. 5ªfeira.</p>
<p style="text-align:justify;">Levanto-me cedo e tomo o café da manhã antes de subir até o Castelo dos Mouros.</p>
<p style="text-align:justify;">Vestígios do passado que apenas se percebem por exercícios imaginários, uma vez que desde o Século XII o caminho percorrido era simples picadão, provavelmente disfarçado. Das referências clássicas, extraídas dos esforços de D. Afonso Henriques, pouca certeza obtemos de como os combates se travaram, mas o curioso acha-se nos cuidados com as defesas das encostas, ali ainda vivas e sólidas. A serra está diante de nossos olhos, circunstância que nos leva a suposições logísticas do ataque final português.</p>
<p style="text-align:justify;">As lápides romanas com letreiros levam-nos a pensar em termos de estupor em face da audácia manifestada por centuriões.</p>
<p style="text-align:justify;">Teria Poncio Pilatos por cá passado, vindo das Gálias? Byron, é certo, trouxe aqui Shelley a fim de ver a beleza da vista. E nele falando, disse-me o gerente do albergue, onde dormi, que várias vezes ali se hopedara o poeta inglês. Não sei, pois aqui há dezenas de lendas e meias-verdades sobre viajantes famosos do passado ao presente.</p>
<p style="text-align:justify;">Vasculhei o que pude para entender o Castelo, sem visitas, sem turistas, sem vigilância alguma.</p>
<p style="text-align:justify;">A minha volta suscitou diversas suposições que se esvaíram. O que ocorrerá com a passagem do tempo? Aqui hei de voltar.</p>
<p style="text-align:justify;">Jantar marcado em Cascais com Ângelo. O encontro no Cassino as 9:30 e retorno ao meu cômodo, outra vez indo à Praça para o almoço, só, observando que o ônibus de Lisboa trazia turistas para a visita ao Palácio Real.</p>
<p style="text-align:justify;">Cheguei a Cascais no final da tarde e no saguão encontrei o amigo com a esposa, elegante e tranqüila. Quem diria?, pensei. Este cavalheiro, despido de vaidade, foi o bastonário da Ordem dos Advogado que unificou grupos militares em divergências. Com alguns coronéis conhecidos, recolhi a descrição daquela eminência parda, como se fosse o retrato tirado por Erich Voegelin e Aldous Huxley em seus conceitos. Sim, porque estamos a par do que significa o líder articulador em países subdesenvolvidos, bem como os seus modelos romanos na era de ditadores e tiranos.</p>
<p style="text-align:justify;">Assistimos ao show, após a refeição, Elsa Coimbra cantando fados e outro espetáculo de Kaye Sisters. No Cassino, poucos portuguêses, o que realçava o preconceito da Esquerda lisboeta a esse tipo de entretenimento.</p>
<p style="text-align:justify;">Ângelo de Almeida revelou-me pormenores que lhe dificultaram a missão pacificadora no período anterior à derrubada de Marcelo Caetano, bem como aspectos da atuação de Mário Soares quando de sua postura inicial.</p>
<p style="text-align:justify;">Levou-me, depois a Lisboa, deixando-me no hotel. Na condição de motorista, Ângelo não era a habilidade de convencer os parceiros. Alguns sustos no percurso, afinal superados quando subi o elevador do Tivoli.</p>
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		<title>Sintra: Rápida Visita</title>
		<link>http://pmercadante.wordpress.com/2009/10/17/sintra-rapida-visita/</link>
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		<pubDate>Sat, 17 Oct 2009 18:35:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[Sintra, 18.6.1975.4ª feira.
Sigo para o meu destino em cada dia, quase bate o carro por imprudência de meu motorista, mas apenas susto a que já estou habituado.
Há tempos penso em Sintra e quem não jamais a esquece. Sinto-a em Camões e em Eça, fases iguais de minha puberdade. Por dessas coincidências da vida, com a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=415&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;">Sintra, 18.6.1975.4ª feira.</p>
<p style="text-align:justify;">Sigo para o meu destino em cada dia, quase bate o carro por imprudência de meu motorista, mas apenas susto a que já estou habituado.</p>
<p style="text-align:justify;">Há tempos penso em Sintra e quem não jamais a esquece. Sinto-a em Camões e em Eça, fases iguais de minha puberdade. Por dessas coincidências da vida, com a paisagem, primeiramente, graças ao testemunho do épico em seus Lusíadas: no terceiro canto, permita que lembre de meu pai nos anos trinta.</p>
<p>Sintra, onde as Naiades escondidas:</p>
<p style="text-align:right;">Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,<br />
Onde Amor as enreda brandamente,<br />
Nas águas acendendo fogo ardente.</p>
<p style="text-align:justify;">Algum tempo depois, nela convivi com personagens de <em>Os Maias</em>, ao deixar Eça que seu maldoso sarcasmo caisse sobre o Alencar do Alenquer. Prevalece em meu espírito a estrofe do épico sobre o romancista por pormenor do contraste <em>fria-Sintra</em> e <em>fogo-ardente,</em> a primeira imagem, que minha memória identifica.</p>
<p style="text-align:justify;">A quarenta quilômetros de Lisboa, levamos meia hora de trajeto, descendo eu em sua praça diante do Paço Real, onde, após a bica, retornei, fixado nos filhos de D. João 1º, cujos cômodos nos confundem pela simplicidade da época. Do mesmo modo, ora, pois, dos aposentos de D. Sebastião à ante-sala onde Camões o fez ouvir seus versos.</p>
<p style="text-align:justify;">Pela segunda vez subo todos os degraus do interior. Hoje, porém, minha vontade volta-se ao percurso de Byron, do centro pelo caminho que nos levará a Cascais em floresta cortada por estrada estreita com paleolíticos, romanos e árabes ocultando suas moradas entre os arvoredos.</p>
<p style="text-align:justify;">Não sei se real já na versão haja ainda amendoeiras milenares, mas bela é a subida até o Castelo árabe que a fiz desde o parque diante dos <em>Palácios</em> <em>dos Seteais </em>até o<em> </em>cume das ruínas.</p>
<p style="text-align:justify;">Escurecia quando voltei e tomando a ida para Lisboa, onde cheguei reclamando o banho para o jantar com Michael e seus companheiros correspondentes.</p>
<p style="text-align:justify;">O Conselho da Revolução ora cogita de averiguar a violência sobre presos políticos durante o sistema socialista e Ângelo de Almeida Ribeiro estava a par de todas as intenções dos militares e advogados que julgavam necessária a apuração.</p>
<p style="text-align:justify;">Tudo certo, em princípio, porém, após o Movimento de Abril se confirmavam outros abusos dos vitoriosos.</p>
<p style="text-align:justify;">Ângelo também conosco naquele jantar revelou-nos que a Ordem dos Advogados estava atenta àquelas situações. Ainda há poucos dias um cidadão em Ponta Delgada, Açores, queixava-se à Comissão que fora preso, de modo arbitrário e sob ameaça, sofrendo em sua cela tratamento desumano e degradante.</p>
<p style="text-align:justify;">Recente, há duas semanas, o Relatório apresentava o quadro de trinta indivíduos a visarem a independência de Açores, tentativa ao arrepio da legitimidade de Portugal quanto à Ilha, descoberta pelo Infante D. Henrique, o Navegador, filho primogênito de D. João 1º.</p>
<p style="text-align:justify;">A inconfidência repercutira na Ilha Terceira, segundo as diligências. Mas a questão, bem elucidada, encontrou métodos de tortura durante a apuração e tal fato repugnara à Ordem dos Advogados.</p>
<p style="text-align:justify;">São fatos naturais após ações revolucionárias vitoriosas. No Brasil, o mesmo ocorrera em 1930 quando os tenentes e o Partido Republicano Mineiro derrubaram o Governo constituído e alegando fraude eleitoral, perseguiram os vencidos, sem, no entanto, levá-los à tortura.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim ocorre com o princípio hegeliano de que o <em>real é racional, </em>levando o<em> estado de direito</em> novo sobrepor-se ao <em>direito anterior, </em>tornar-se legítimo por razões expostas com brilho pelo positivismo jurídico italiano.</p>
<p style="text-align:justify;">Tenho dito, expressou-se o Mestre Nelson Hungria, no julgamento do <em>writ</em> impetrado pela União Democrática Brasileira contra ato das Forças Armadas diante de planejado <em>golpe de estado </em>em preparo pela oposição derrotada de Carlos de Lacerda <em>et caterva</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Aos jovens que nada viram e menos leram a respeito, apenas o conselho de avaliar o que representa o Direito Público em face da realidade das coisas. Tenho dito.</p>
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		<title>Linha Dura x Radicais</title>
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		<pubDate>Sat, 10 Oct 2009 18:39:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[Lisboa, 17.6.1975,  3ª feira.
Em Jerônimos com Michael e por perto almoçamos. Por ali caminhamos a observar pouco movimento, ausência de turistas, diferenças entre Lisboa antiga e atual.
Meu amigo sofria as saudades do Brasil, bem como lamentava as pressões que seu jornal Daily Telegraph recebera do Governo brasileiro para substitui-lo como correspondente. Como explicá-las?
Assunto que tão [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=412&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;"><strong>Lisboa, 17.6.1975,  3ª feira.</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Em Jerônimos com Michael e por perto almoçamos. Por ali caminhamos a observar pouco movimento, ausência de turistas, diferenças entre Lisboa antiga e atual.</p>
<p style="text-align:justify;">Meu amigo sofria as saudades do Brasil, bem como lamentava as pressões que seu jornal <em>Daily Telegraph </em>recebera do Governo brasileiro para substitui-lo como correspondente. Como explicá-las?</p>
<p style="text-align:justify;">Assunto que tão me deixara surpreso, pois a Michael, como conservador que era, não escapara que à Esquerda faltas compreensão do momento histórico e que procurava radicalizar a situação política sem levar em conta o bom êxito da economia, o que irritava a facção militar à procura de acalmar a ação terrorista com o programa de próxima abertura.  Seqüestro a Embaixadores, assaltos a bancos e assassinatos de militares e empresários desencadeados com freqüência.</p>
<p style="text-align:justify;">Tão conciliador mostava-se o chamado <em>grupo Sorbonne, </em>que seu ideólogo General Golberi sempre recebia secretamente partidários de linha comunista moderada, o que muito parecia com o estado de coisas em 1942 segundo a <em>Liga de Defesa Nacional.</em></p>
<p style="text-align:justify;">General Rabello, então influente junto aos quadros da <em>Sociedade</em> <em>Amigos da Améria </em>trouxera ou fora trazido por grupo que cercava o Ministro Oswaldo Aranha, circunstância que Vargas admitia, porém fazendo restrição às eleições presidenciais naquele momento em que o Brasil passara a apoiar abertamente os aliados e mesmo cooperar com Roosevelt.</p>
<p style="text-align:justify;">Médice, logo de início a seu governo, leu dois discursos anunciando que em sua gestão o processo político seria aperfeiçoado. O <em>Serviço Nacional de Informações</em> disso<em> </em>tinha conhecimento, apoiando-o.</p>
<p style="text-align:justify;">Segundo Hermógenes Príncipe, político baiano de grande percepção, armou-se com Jorge Serpa a proposta para o seu discurso de posse.</p>
<p style="text-align:justify;">Tal imprudência acabava de dar força à<em> linha dura </em>dos militares e dos próprios conservadores que preferiam a estratégia planejada por Castelo Branco e acatada por Costa e Silva: <em>a linha moderada para alcançar o estado de direito</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Michael, em sua coluna do <em>Daily Telegraph</em>, como redator, descreveu o quadro político de então, o que desagradou os mais radicais. Oficialmente <em>Médice</em> não teve conhecimento de que o Itamarati iria tecer os pauzinhos para as suas estrepolias.</p>
<p style="text-align:justify;">O jornalista, admirador do Brasil, não compreendeu o <em>imbróglio</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">À tarde, após passar pelo Hotel, seguimos de carro até a Fundação Calouste Gulbenkian, que estava com pouco movimento.</p>
<p style="text-align:justify;">À noite, enquanto ia eu para as Portas de Santo Antão, Fields partia para uma entrevista com um grupo do O Porto que por aqui faz o balanço da confusão montada pelos esquerdistas.</p>
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		<title>Estilo em ritmo de mudança</title>
		<link>http://pmercadante.wordpress.com/2009/10/03/estilo-em-ritmo-de-mudanca/</link>
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		<pubDate>Sat, 03 Oct 2009 18:02:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[                                                           Lisboa, 16.6.75. 2ª feira
 Chiado e Rossio, almoço com Michael no Tivoli. Escritório de Ângelo à tarde e jantamos no Carmo. São vinte e três horas, tudo vazio, descemos pela Garrett.
Falei-lhe sobre o meu Portugal-Ano-Zero, considerando que muita matéria escapara, mas, respondia ele, gostara da síntese e da exposição sem parcialidade quanto havia de real. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=408&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;">                                                      <strong>     Lisboa, 16.6.75. 2ª feira</strong></p>
<p style="text-align:justify;"> Chiado e Rossio, almoço com Michael no Tivoli. Escritório de Ângelo à tarde e jantamos no Carmo. São vinte e três horas, tudo vazio, descemos pela Garrett.</p>
<p style="text-align:justify;">Falei-lhe sobre o meu <em>Portugal-Ano-Zero</em>, considerando que muita matéria escapara, mas, respondia ele, gostara da síntese e da exposição sem parcialidade quanto havia de real. Entrou a expor-me sobre o que vinha, notícias do Porto, mobilização de adversários para o que der e vier, em caso de implantação de sistema radical. Peguntou-me sobre o que achavam os correspondentes por saber que Michael, onde andava, era sempre o mais respeitado.</p>
<p style="text-align:justify;">O que dizem é óbvio. <em>Álvaro Cunhal</em> é um bolchevista, quer dizer, está com a maioria. O Partidão português é como o francês, alinha-se sem discussão com Moscou. e os soviéticos já mandaram o recado: “<em>obtenham boa votação, não criem caso com o socialismo, nem procurem influir em sua prudência</em>”.</p>
<p style="text-align:justify;">O problema está em que o leninismo sempre citava Engels quanto à condição dos socais-democratas: trata-se de companheiros ruborizados, isto é, não assumem por medo da burguesia conservadora.</p>
<p style="text-align:justify;">Enfim, na Esquerda em geral, os adeptos também sabem manteer-se em cima do muro. Mario Soares é professor nesse assunto. Usa a simpatia conhecida, dividindo-se entre os partidários de Bernstein e Lenine. Ele vai repetir a dose de marxismo mitigado, fugindo dos subterfúgios de Adriano Palma Carlos e do próprio Presidente Antonio de Spínola.</p>
<p style="text-align:justify;">As tendências multiplicaram-se, em verdade, por motivo de número expressivo de facções, pois as linhas justas e injustas abundam.</p>
<p style="text-align:justify;">Porém as mudanças nos modos de viver, de comportar-se nascem, dia a dia, permitindo-nos senti-las nas raparigas, como se exprimem os portugueses, tanto Camilo Castelo Branco quanto o próprio Eça. Muitas e muitas usam maquilar-se para o trabalho, com rouge e batom, corte bem mais curto nos cabelos, sem contar a presença de moças nas passeatas. Abraçadas ou salientes, exibindo-se sem as maneiras dos tempos duros.</p>
<p style="text-align:justify;">Da mesma forma, o formalismo sofre com os modos masculinos de comportamento social, uma vez aberto, fugindo-se ao tratamento anterior de excelência. Sente-se mesmo que a extroversão adquire o tom surdo do passado, ocorrendo nas lojas melhor diálogo com o cliente, ou seja, maior leveza em pedidos de esclarecimento.</p>
<p style="text-align:justify;">Michael comenta, como britânico, essas sutilezas da vida, produzidas por mudanças políticas e sociais. Nós, brasileiros, temos ainda o tratamento cordial. Sentimos que apesar de algumas reclamações quanto ao nosso modo de confundi-los com a pressa de viajante ou turista, eles também se divertem com o nosso coloquial.</p>
<p style="text-align:justify;">Sinto-me bem em Lisboa, tanto quanto em Roma e Nápoles. Não é para menos, pelo lado paterno e materno, sou de raízes latinas nos últimos quinhentos anos. Diz a Genética moderna que isso é apenas um dia em dezenas de milhares de anos. Felizmente, afinal, somos ainda neolíticos.</p>
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		<title>O começo do emaranhado</title>
		<link>http://pmercadante.wordpress.com/2009/09/26/o-comeco-do-emaranhado/</link>
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		<pubDate>Sat, 26 Sep 2009 18:56:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>
		<category><![CDATA[A balbúrdia política em Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[O recado de Moscou]]></category>
		<category><![CDATA[Revolução dos Cravos]]></category>

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		<description><![CDATA[Lisboa, 15.06.75, Domingo.
Cheguei ao Tivoli Hotel , às 14h30, bem disposto, ainda que saudoso de Paris, e após alojar-me, encontro Michael Fields no bar, em conversa com Beatriz Costa.
Ela, como sempre simpática, em sua vida tranqüila e saudosa do Brasil, assustada com os acontecimentos em Portugal.
Despedimo-nos e juntos descemos a Avenida da Liberdade em direção [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=402&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;"><strong>Lisboa, 15.06.75, Domingo</strong>.</p>
<p style="text-align:justify;">Cheguei ao Tivoli Hotel , às 14h30, bem disposto, ainda que saudoso de Paris, e após alojar-me, encontro Michael Fields no bar, em conversa com Beatriz Costa.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela, como sempre simpática, em sua vida tranqüila e saudosa do Brasil, assustada com os acontecimentos em Portugal.</p>
<p style="text-align:justify;">Despedimo-nos e juntos descemos a Avenida da Liberdade em direção ao Rossio. Michael com entrevista agendada; eu segui até a Ordem dos Advogados no Largo São Domingos.</p>
<p style="text-align:justify;">Domingo, pelo começo da tarde, Ângelo me aguardava, o porteiro abriu as portas e conduziu-me à Biblioteca. A Ordem, que tanto se empenhara para a Revolução, observava o andar do processo político.</p>
<p style="text-align:justify;">A proclamação trazia o selo da tradição lusitana: <em>nosso</em> <em>Movimento é português:</em> <em>nasceu cá, dos nossos problemas</em>. Declaravam em Manifesto as <em>Forças Arma</em>das que estavam desiludidos com as guerras coloniais, certos de que, pela força, nunca venceriam os guerrilheiros de Angola e Moçambique, bem como de outras pequenas províncias ultramarinas.</p>
<p style="text-align:justify;">O grupo rebelde, fechado e disposto, contava com aproximadamente 15% dos oficiais ativos das três armas. Conderando o efetivo armado, podemos avaliar em pouco mais de trezentos os membros de agrupamento revolucionário, em sua maioria capitães e majores. Em cada arma constituiu-se o <em>Conselho</em> que elege seus representantes junto à <em>Comissão Coordenadora</em>, composta de sete membros, sendo três do Exército, dois da Marinha e dois da Aeronáutica.</p>
<p style="text-align:justify;">Tratava-se da missão do <em>Programa</em>, não se sobrepondo ao poder político, mas à submissão ao poder legítimo, oriundo do voto popular, não excluída a defesa dos princípios, cujo objetivo parece ser o aperfeiçoamento do levante de abril.</p>
<p style="text-align:justify;">O M.F.A, nascido sem liderança, não se encontra comprometido a qualquer movimento político. <em>Estamos em uma causa, queremos a democracia</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas, dizia-me Ângelo, sem dúvida a voz serena do bom senso português, a Esquerda parece estar engajada no pensamento que inspira o sentido democrático. Mas, como crer na Esquerda afeita à ética da finalidade. Os fins justificam os meios, eis o que ela proclama na trilha dr Torquemada. O que provavelmente a colocará no círculo de crise insustentável, pois havia no quadro os radicais da linha chinesa.</p>
<p style="text-align:justify;">Ângelo me explicava que a conjuntura era de perplexidade dos liberais. Lisboa via saírem do País centenas de perseguidos pela espécie de <em>Poder Paralelo</em> formado por Esquerdistas radicais. Nada podia fazer a Ordem dos Advogados e nada estruturado ainda nascera.</p>
<p style="text-align:justify;">Voltei ao Hotel para rápido descanso e à noite para jantar. Michael me levou ao <em>Pub</em> dos <em>Correspondentes de Imprensa.</em> Lá também chegou, a meu convite, o anti-salazarista que Antônio Paim conhecera em Moscou, desencantado já então com o sistema estalinista, porém sem outra alternativa, uma vez que, se retornasse a Portugal salazarista, a polícia o prenderia.</p>
<p style="text-align:justify;">Dessa vez, entrara em cena o surrealismo. O grupo que se pusera à margem da Polícia Política soviética, mais chegado, pois, à Internacional Comunista que atuava como corpo secreto, deu-lhe a missão e o passaporte a fim de que avisasse o Partido Comunista Português, ora já atuante, de que não radicalizassem as posições para que não se criasse situação desconfortável com os países de sistema democrático.</p>
<p style="text-align:justify;">Ele voltara a seu País e levara a Álvaro Cunhal, secretário do P.C.P. o aviso tático por motivo da posição geográfica portuguesa, circunstância que consistia em provocação aos EE.UU.</p>
<p style="text-align:justify;">A respeito de ser tema inconveniente, com todo o jeito de provocação, o antigo membro da facção vermelha, foragido por mais de trinta anos na União Soviética, nada comentou conosco a respeito. Com jornalista é assim: todo o cuidado é necessário, comprometem até a própria mãe.</p>
<p style="text-align:justify;">Toda essa história, se voltarmos ao final do decênio de cinqüenta, é um emaranhado só inteligível após a leitura do <em>Retrato</em>, de Osvaldo Peralva, livro que ficará à posteridade para que nossos descendentes possam perceber o sinistro papel do extinto comunismo soviético. No livro, de dificílimo encontro, é posto como personagem o sinistro Sivólobov, figura desprezível que dava ordens aos dirigentes comunistas brasileiros. Nunca viera ao Brasil, não lia nem falava o português, e dissertava, sem nada saber, sobre o problema agrário brasileiro, comparando-o ao chinês.</p>
<p style="text-align:justify;">Suas cartas ao Secretariado de Diógenes Arruda eram exibidas, fechadas em envelope comum, como escritas por Stáline. A história é lamentável.</p>
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		<title>Aspirada Visita</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Sep 2009 18:50:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[ Versalhes, 14.6.1975. Sábado
 Pelas sete e meia da manhã, deixo o Hotel e tomo o carro que me levará a Versalhes. A vinte quilômetros de Paris, salto à entrada dos Jardins, fixado no que sempre pensara desde a adolescência, quando a leitura me proporcionou acatar o ponto de vista de que a literatura é a antropologia [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=399&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;"><strong> Versalhes, 14.6.1975. Sábado</strong></p>
<p style="text-align:justify;"> Pelas sete e meia da manhã, deixo o Hotel e tomo o carro que me levará a Versalhes. A vinte quilômetros de Paris, salto à entrada dos Jardins, fixado no que sempre pensara desde a adolescência, quando a leitura me proporcionou acatar o ponto de vista de que a literatura é a antropologia da antropologia.</p>
<p style="text-align:justify;">Em 1937, aos treze anos e meio, por razão de saúde, interrompi o meu curso ginasial e fui liberado das aulas da manhã. Assim ocorreu e em repouso logrei chegar a alguns entendimentos sobre o que se dera no Ocidente.</p>
<p style="text-align:justify;">Desse modo, aceitei o ponto de vista de que a partir de Luís XIII tivera início a decadência da nobreza na França.</p>
<p style="text-align:justify;">O então soberano, em face de suas limitações, guiado pelo Cardeal Richelieu e por sua Eminência Parda, Irmão Tremblay, logrou a consolidação da questão religiosa, inspirado na estratégia da mãe Maria de Médicis, Regente até a maioridade do Príncipe que se tornou Luís XIII.</p>
<p style="text-align:justify;">A partir dos primórdios do século dezessete, consolida-se o catolicismo e Versalhes viu nascerem-lhe as mudanças, aos poucos e intensamente com as sucessões de Luís XIV e XV. Até o final de Setecentos, ao instalar-se o Terror dos conhecidos tiranos Danton e Robespierre, os reis franceses sustentaram a decadência da nobreza.</p>
<p style="text-align:justify;">Versalhes tornar-se-ía uma Sodoma sofisticada, oculta do povo, mas percebida pelos intelectuais que constituíram o Iluminismo. Como em processo gramsciano, de nossa tempo, a geração de Rousseau e Voltaire, com o apoio de outros vultos ilustres, criaram a espécie de Nomenclatura que, por intermédio da Classe Média, levou a cabo com a Maçonaria, a derrubada da antiga classe e seus sustentáculos na nobreza pervertida e corrupta.</p>
<p style="text-align:justify;">Em Regresso ao passado da família real, então podemos seguir a trajetória de Richelieu, à adoção do <em>Estado sou Eu,</em> a displicência de Luis XV e, finalmente, a indolência de Luis XVI.</p>
<p style="text-align:justify;">Maria de Medicis me fascinava deveras. Em minha puberdade, consideradas críticas que lhe eram feitas, eu não as aceitava e muitas vezes sentia a ligeireza com que a interpretavam, quando, em verdade, vivera ela em época de profundas mudanças religiosas e radicais.</p>
<p style="text-align:justify;">A florentina sempre pensava em traições e astúcias da nobreza e, pois, movimentava-se no clima de incerteza.</p>
<p style="text-align:justify;">Saltei nos jardins de Versalhes e enquanto perambulava pelo sítio recordava-me de quando ali girara de jipe nos idos de 45 com meus dois complicados companheiros que só se comoviam em matéria de logística e contra-espionagem.</p>
<p style="text-align:justify;">Pela manhã, hoje, vejo-me por ali durante os reinados de Luis XIV e Luis XV.</p>
<p style="text-align:justify;">Girava pelos Jardins, vindo-me à lembrança do que ali tramaram os maçons de Cagliostro a fim de manchar a figura da Rainha Maria Antonieta para torná-la o símbolo da corrupção e desprezo pelo povo.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao entrar no <em>palazzo </em>dei<em> </em>início ao<em> </em>que me faltara no passado: a riqueza desde a <em>Cour Royale</em> ao Museu Histórico.</p>
<p style="text-align:justify;">Com os passos vagarosos sigo para os grandes salões, desde a <em>Opera</em> e a <em>Capela</em> até os salões do rei e os de <em>Diana</em> com um busto de Luis XIV, de Bernini e assim por diante.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu anotei em caderneta tudo o que me levará a consultar o que consta em minhas observações de leitura. É o que posso fazer diante do acervo.</p>
<p style="text-align:justify;">Pelas quatro da tarde, sem almoço, volto a Paris com o fito de meu último jantar, o que fiz quando chegado em <em>Lés Trois Bonheurs.</em></p>
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		<title>Presente &amp; Passado</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Sep 2009 19:34:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[Sexta-Feira.
Paris, 13 de Junho de 1975. 

Manhã e tarde livres para rever Dôme des Invalide, onde se acha o túmulo de Napoleão. Outros da família fazem-lhe a companhia que antes tiveram, além de Foch e Vauban, o primeiro, arquiteto da vitória da França no conflito de 19l4 a l9l8, consagrado pela batalha de Marne, último, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=396&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;"><strong>Sexta-Feira.<br />
</strong><strong>Paris, 13 de Junho de 1975. </strong></p>
<p style="text-align:justify;">
<p style="text-align:justify;">Manhã e tarde livres para rever <em>Dôme des</em> <em>Invalide, </em>onde se acha o túmulo de<em> </em>Napoleão. Outros da família fazem-lhe a companhia que antes tiveram, além de Foch e Vauban, o primeiro, arquiteto da vitória da França no conflito de 19l4 a l9l8, consagrado pela batalha de <em>Marne,</em> último, não sei a razão por que, a não ser a dignidade daquela sombria atmosfera de Luís XIV.</p>
<p style="text-align:justify;">Creio que, do ponto de vista militar, o clima veste-se de humanismo sem a demagogia revolucionária do futuro francês, ao apresentar a plataforma de igualdade e solidariedade na área fiscal, exposta de modo pragmático em seu livro sobre o <em>dízimo real</em>. A circunstância dessas homenagens <em>post mortem</em> a Bonaparte só se explica por duas razões que nos servem para aferir o tema do papel do indivíduo na história, examinado diante do dogma de que não existe.</p>
<p style="text-align:justify;">No momento estou diante do sepulcro de Bonaparte e desfazem, por encanto, minhas restrições à sua pessoa após a tomada do poder e ganhar a confiança da burguesia vitoriosa de 1789.Trata-se de capítulo que nos confunde a mente durante a vida.</p>
<p style="text-align:justify;">Ali estão os restos mortais; em <em>Las Cases</em>, seu médico e confessor, esboça apenas a versão do seu projeto histórico, já em vida revelado ao ordenar que na <em>Praça Vendôme</em> o postassem com os olhos voltados para o leste.</p>
<p style="text-align:justify;">O ataúde é simples e o sentido simbólico nos lenhos se disfarça de formas severas. São madeiras de lei, equivalem-se às suas determinações que só fraquejavam diante do olhar de Josefina. O caixão que recebe as homenagens da posteridade é simples, perfeito, geométrico.</p>
<p style="text-align:justify;">Aí vou ficando, minutos que oscilam entre o bem o mal, entre as reformas seculares que impunham aos vencidos e o morticínio que as velhas resistências erguiam em seu caminho. Jamais pensou em pudor nacional, na honra de seus adversários, era o jogador de xadrez pronto para o <em>xeque-mate.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Leão Tostoi deu-lhe, em Ana Karenina, a resposta da História para todas as glórias pessoais.</p>
<p style="text-align:justify;">Outras novas visitas, hoje fazendo sem ânimo de registrá-las, porque em meu espírito dera-se um choque de pontos de vista.</p>
<p style="text-align:justify;">À noite, D. Niomar chamou-me para o jantar no <em>Café dos Artistas, </em>avisando-me de que convidara amicíssima sua desde quando ao Rio chegara nos finais dos anos trinta.</p>
<p style="text-align:justify;">O telefonema que me fizera levou-me à<em> corrida</em>, pois como andarilho precisava trocar de roupas.</p>
<p style="text-align:justify;">Apesar de britânico em meus encontros, seguindo conselho de Hannibal, lá cheguei às 21 horas. Encontrei-as sentadas.</p>
<p style="text-align:justify;">Feita a apresentação, lembranças irromperam, voltando-me ao passado dos anos quarenta. O perfil daquela criatura identificou-se com a era getuliana, quando chegado ao Rio, e pouco antes de ser convocado para a Segunda Guerra.</p>
<p style="text-align:justify;">Era a pessoa que discretamente se movia na sociedade, mas como estrela vespertina lançava o seu encanto, onde número expressivo de acadêmicos atuava politicamente sob a batuta do <em>Diretório Central dos Estudante.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Impossível definir D.EdyalaVargas, então, em razão de beleza sem esnobismo, ao exibir a elegância, o jeito de ser feminino sem afetação, o modo de sorrir.</p>
<p style="text-align:justify;">Sua força naqueles anos de sucessivas crises, manifestava sem ruído, pois, Getúlio Vargas, em plena ditadura cruel, desfrutava respeito popular pela forma com que abordava difíceis problemas postos no tabuleiro da política internacional.</p>
<p style="text-align:justify;">Vargas a ouvia e sabia pela filha Alzira que Edyala era de serena dignidade, aguda inteligência, domava o irmão troglodita Bejo Vargas, apesar do seu difícil temperamento.</p>
<p style="text-align:justify;">Hoje eu percebo que ela procurava amenizar a rudeza de Scarpia para os perseguidos; sem plano algum, naturalmente, tornando-se misto de Vitoria Colonna, no Renascimento e Lou Andréas Salomé, no meado do século vinte.</p>
<p style="text-align:justify;">Porém as exceções se fazem para confirmar a realidade formal das coisas. A personagem, apesar dos trinta anos transcorridos, ainda estava fascinante e eu percebia que as pessoas no local observavam-na com o silêncio com que se olham as criaturas raras.</p>
<p style="text-align:justify;">D. Niomar era outro tipo de simpatia e graça. Personalidade forte, aguerrida, faltava-lhe jogo de cintura para atuar na política.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>O Correio da Manhã</em> atuara decisivamente para a derrubada de Jango a fim de tornar-se, após o governo da Revolução, em seu maior adversário. Roberto Marinho fora sagaz, tornou-se anti-janguista às vésperas do contra-golpe, mas se acomodou com o <em>grupo</em> <em>Sorbonne.</em></p>
<p style="text-align:justify;">D. Niomar, em face das medidas de 31 de Março, não a suportou em termos financeiros, deu meia-volta e tornou-se oposição até que o arrendou para três empreiteiros que visavam a influir na sucessão de Castelo Branco. Não obtendo êxito, devolveu o matutino mais individado à sua proprietária. Já era tarde.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas voltando às personagens, conduzi a conversação para a literatura, lembrando-me que no final dos anos trinta, Niomar, vinda da Bahia, publicara em revista um artigo sobre Proust que li em minha terra natal.</p>
<p style="text-align:justify;">Já a amiga conhecia todos os modernistas, inclusive Graciliano e Jorge Amado.</p>
<p style="text-align:justify;">As duas eram propensas à subjetvidade em literatura e então só as agradando o realismo crítico dos dois grande romancistas brasileiros. Certa, a melhor alternativa.</p>
<p style="text-align:justify;">Dessa forma, ambas me fizeram aprender e, mais uma vez, só as deixei após último brinde aos amigos Osvaldo Peralva e Newton Rodrigues que salvariam Niomar e seus gráficos de pesado final.</p>
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		<title>De início, a tarefa.</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Sep 2009 17:24:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[Paris, 12.6.1975. 5ª feira

Estou no Madeleine–Palace durante a tarde, alojo-me no terceiro andar sem que , pela janela, possa sentir a atmosfera tranqüila de rive droit. 
Minha cliente aguarda o chamado, o que faço mesmo antes do banho e mudança de vestuário. Irei ao seu apartamento em Trocadero a fim de discutir o andamento de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=393&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;"><strong>Paris, 12.6.1975. 5ª feira</p>
<p></strong></p>
<p style="text-align:justify;">Estou no Madeleine–Palace durante a tarde, alojo-me no terceiro andar sem que , pela janela, possa sentir a atmosfera tranqüila de rive droit. </p>
<p style="text-align:justify;">Minha cliente aguarda o chamado, o que faço mesmo antes do banho e mudança de vestuário. Irei ao seu apartamento em Trocadero a fim de discutir o andamento de nosso esforço por solução justa e humanística. </p>
<p style="text-align:justify;">Antes, porém, quero rever o meu sítio querido a partir de Vendôme, alcançando Opera, tomando o café em frente ao Grande Hotel, relembrando, em forma de fotos desbotadas, minhas distantes e recentes passagens por ali. </p>
<p style="text-align:justify;">Então passa das dezessete horas e sigo para Trocadero. Já não havia congestionamento e às vinte horas encontrei-me com o objeto da viagem e por duas prestei as informações necessárias. </p>
<p style="text-align:justify;">Eis o dia partido, recebendo o impacto do passado. Michael Fields está em Lisboa, Giuliana me informa, falo a Hannibal em Londres para, afinal, descansar antes da meia-noite. Não há nada marcado em nosso Círculo para debate, e a instrução é prosseguir sobre matéria relacionada aos temas principais.  </p>
<p style="text-align:justify;">Sua última carta disso nos avisara, dando-me sugestões para o trabalho próximo. </p>
<p style="text-align:justify;">Há qualquer traço forte em nossa melancólica incursão nos temas que transcendem nossas dúvidas. </p>
<p style="text-align:justify;">Que vemos? As ciências puras em crise permanente, mas as aplicações científicas separam-se da teoria e avançam com celeridade. Contradição insuportável, caro companheiro, mas prossigamos, digo-lhe por telefone com certa intranqüilidade. </p>
<p style="text-align:justify;">Qual o fundamento? A perseguir-nos. Enfim todos continuamos empenhados no entender entre o sentimento e o movimento. Não conseguimos responder a Kant. </p>
<p style="text-align:justify;">Não me esqueço de ligar aos amigos Osvaldo Peralva e Newton Rodrigues que dirigiram o Correio da Manhã até a confissão de sua falência. </p>
<p style="text-align:justify;">O problema caíra-me em mãos do ponto de vista legal e a estratégica processual obedecia ao princípio de não deixar um só funcionário sem a indenização a que fazia jus pela lei trabalhista. Tratava-se de imperativo categórico aceito por d. Niomar Sodré Bittencourt e traçado quando, a duras penas, decidiu pelo fechamento do matutino. </p>
<p style="text-align:justify;">Tudo se fez por seu intento e ouvidos foram os seus amigos de redação, os já citados Peralva e Newton e ainda Paulo Francis, Gilberto Paim, além de seu ex-advogado Nascimento Silva, pessoa honrada e antigo membro do Clube do Caju na década de trinta. </p>
<p style="text-align:justify;">A trajetória, tanto substantiva quanto adjetiva, corria rigorosamente exata e a corrente castelista no Governo jamais interferiu em matéria de justiça.  </p>
<p style="text-align:justify;">O Governo militar, em sua primeira fase, buscava tenazmente deter a inflação galopante dos anos populistas de Goulart e tentava absorver qualquer tipo de radicalização, fosse de direita ou esquerda. No entanto, o chamado grupo Sorbonne esbarrava com facções que temiam intentos extremistas e desafiava o próprio Presidente. </p>
<p style="text-align:justify;">Este, antigo tenente dos anos trinta, mantinha-se em voltar ao pleno estado de direito e sua firmeza acabou por levá-lo ao princípio de que deveria e poderia concluir o mandato presidencial de Goulart. </p>
<p style="text-align:justify;">Jantamos eu e Giuliana no Clube dos Correspondentes Estrangeiros, bem próximo à Saint Honoré, tendo lá encontrado e conosco sentado Kurt Klinger, jornalista alemão, autor também de conhecido livro sobre o Papa João XXIII. </p>
<p style="text-align:justify;">Retornamos para levar Giuliana em casa e depois nos dirigimos aos respectivos destinos.</p>
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