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	<title>Paulo Mercadante</title>
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	<description>Experiência e reflexão</description>
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		<title>Paulo Mercadante</title>
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		<title>Modernidade x Tradição</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Nov 2009 17:33:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[Paris, 03.10.75, Sábado
Rodei e rodei  pela Rivoli e concluí por dirigir-me ao  Louvre. Só, deixei os recados na Gerência do Hotel. Tudo programado, mas ainda dependo de informações telefônicas do Rio e a tranquila presença de Hannibal em minhas refeições.
Muito tenho aprendido com as amigas de D.Niomar cá residentes. Senhoras da geração do decênio de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=435&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;">Paris, 03.10.75, Sábado</p>
<p style="text-align:justify;">Rodei e rodei  pela Rivoli e concluí por dirigir-me ao  Louvre. Só, deixei os recados na Gerência do Hotel. Tudo programado, mas ainda dependo de informações telefônicas do Rio e a tranquila presença de Hannibal em minhas refeições.</p>
<p style="text-align:justify;">Muito tenho aprendido com as amigas de <em>D.Niomar</em> cá residentes. Senhoras da geração do decênio de trinta, quando em minha terra acompanhava os acontecimentos que precederam a Segunda Guerra Mundial.</p>
<p style="text-align:justify;">O mais importante, a guerra civil espanhola entre os comunistas e os partidários do liberalismo. Dois símbolos vinham à frente do morticínio: o espírito tradicionalista secular dos ibéricos, sob o comando do <em>General Franco</em> e os adeptos de <em>Dolores Ibarruri</em> que em Moscou se encontrava, dobrando-se diante de <em>Molotov</em>, aliado a<em> Hitler</em> no preparo da guerra.</p>
<p style="text-align:justify;">Dificil entender a história nesse período, só depois decifrável pelas secretas informações de Manuilsky a Franco respeitante aos locais onde se escondiam os comunistas.</p>
<p style="text-align:justify;">As mulheres de trinta, algumas dos trinta, equiparadas a menores, soltaram o seu grito, reivindicando o direito de voto e personalidade civil. No palco, exibem-se na literatura, nas artes e nos casamentos.</p>
<p style="text-align:justify;">Da Bahia veio a jovem<em> Niomar</em>, escrevendo em revista seus primeiros artigos, trazendo o conhecimento de Proust para as jovens que só liam Delly e tocavam piano.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>Paulo Bittencourt, </em>dono do “<em>Correio da Manhã</em>”, por ela se apaixonava.</p>
<p style="text-align:justify;">No “<em><span style="text-decoration:underline;">Jornal do Brasil</span>”</em>a Condessa, filha de Pereira Carneiro, era o comando do matutino<em>.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Quando o Movimento de 1930  veio do Sul e Getúlio Vargas assumiu o <em>Governo suposto Provisório</em>, sua filha <em>Alzirinha</em>, concluindo o ginnásio, dominou o pai e mais tarde, acadêmica de Direito, atraiu para sua liderança os maiores professores de então: <em>Leônidas de Resende, Hermes Lima, Castro Rebelo, Maurício de Medeiros</em> etc.</p>
<p style="text-align:justify;">Eram  também jornalistas e políticos de Esquerda, defrontando-se com os membros do Clube do Cajú, onde se destacavam Santiago Dantas, Schmitt, Nascimento Silva e os Galottis.</p>
<p style="text-align:justify;">Getúlio, ditador que sempre procurava disfarçar-se de liberal, deitado sobre o muro do Executivo, e seu irmão Bejamim,  figura mais poderosa da família, que encontrara a mais bela das mulheres de então, tomou-a do marido, e eis <em>Edyala,</em> em sua tranquilidade, dominando o cenário feminino.</p>
<p style="text-align:justify;">Sim, pois havia outras notáveis. <em>Adalgisa Nery,</em> ex-exposa de <em>Ismael Nery</em>, a mais notável figura da pintura da <em>Semana da Arte</em> <em>Moderna </em>em São Paulo, escritora, poetisa e eminência parda dos revolucionários de trinta, incluindo os tenentes de 22 e 24, trocou seu artista por <em>Lourival Fontes</em>, simpático orientador do futuro Estado Novo de 1937.</p>
<p style="text-align:justify;">Além de culta, senhora de inteligência rara, pontificava e incendiava o coração dos políticos.</p>
<p style="text-align:justify;">Havia ainda <em>Cecília Meireles</em>, poetisa, que assumira com Cassiano Ricardo a ala moderada dos escritores. Nada de radicalismo, como suspirava a Mario de Andrade a fim de que ele domasse seu amigo Osvaldo.</p>
<p style="text-align:justify;">Em outra ala, antes pragmática do que intelectual, estava <em>Aimée,</em> que <em>apenas </em>dirigia a cadeia jornalística de Assis Chateaubriand e alucinava o Ditador.</p>
<p style="text-align:justify;">O esquadrão era poderoso, nele se incluindo sem alarde outras intelectuais como <em>Dinah Silveira de Queiroz</em>, romancista e acadêmica, esposa, em segundo matrimônio, de <em>Dario de Castro Alves, Henriqueta Lisboa, e outras </em>Pelo<em> </em>começo dos anos quarenta, O Supremo Tribunal Federal, então formado por juristas, gerava em seu serviço taquigráfico a mineira Leda Boechat, que ia tornar-se famosa historiadora.</p>
<p style="text-align:justify;">Contemos ainda Bidú Saião no Teatro Municipal em sua fase áurea, sucedida por Gabriela Besansoni, ambas sopranos sinternacionais.</p>
<p style="text-align:justify;">No “front” da Esquerda, a mais preparada intelectualmente era <em>Maria Werneck</em>, presa em 1935 com <em>Olga Prestes</em>, porém mais conhecida se tornou a novelista <em>Raquel de Queiroz</em>, precursora do romance do Nordeste.</p>
<p style="text-align:justify;">Na segunda metade dos quarenta, a ruptura ocorreu naturalmente no âmbito feminino por motivo da influência de <em>Simone de</em> <em>Beauvoir</em>, companheira de <em>Sartre</em> em experiência de promiscuidade.</p>
<p style="text-align:justify;"><em>No café Vermelhinho e Associação Brasileira de Imprensa</em> formou-se grupo novo, sem liderança, uma vez que quase toda a geração anterior mudara-se para Paris. <em>Edyala</em> casara-se com diplomata colombiano, tornando-se <em>Santo</em> <em>Domingo</em>, <em>Niomar</em>, <em>Bittencourt</em>, ambas em <em>Trocadero</em> constituiram o grupo da Praça Vendôme, bem próxima da <em>Opera </em>e do <em>Café de la Paix</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Destacavam-se, entre meia centena, as escritoras <em>Zora Seljean, Zélia Gattai,</em> esposas respectivas de Antonio Olinto e Jorge Amado, <em>Heloisa Ramos,</em> também<em> </em>casada com Graciliano Ramos, <em>Maria Barata,</em></p>
<p style="text-align:justify;">Outras engajavam-e na linha tradicionalista de Luis Carlos Prestes. O Partido Comunista não aceitava a liberdade exibida pelos novos tempos ao expor-se abertamente na Segunda Guerra..</p>
<p style="text-align:justify;">Do decênio de cinquenta aos dias atuais, a população cresceu desmedidamente. O domínio alcançado pela mulher firma-se no seu esforço de ocupar os postos de mando, o que se vai facilitando com a nova legislação de igualdade redigida pelo advogado e deputado<em> Nelson Carneiro</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">É isso aí e volto ao Hotel para mudar de trajo e jantar com as brasileiras de Paris.</p>
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		<title>Balancete sem data</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Nov 2009 18:37:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[Paris, 03.10.75, Sexta-Feira
Meu primeiro dia livre a permitir, só, tomar aquele café defronte ao Grand Hotel, recordar o passado da libertação em Paris e meus companheiros ingleses nuca mais vistos e jamais esquecidos.
Passo pela Opera e me dirijo ao escritório do Daily Telegraph, onde deixo o recado para Michael. Encontro após o almoço com D.Niomar [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=432&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;"><strong>Paris, 03.10.75, Sexta-Feira</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Meu primeiro dia livre a permitir, só, tomar aquele café defronte ao <em>Grand</em> <em>Hotel</em>, recordar o passado da libertação em Paris e meus companheiros ingleses nuca mais vistos e jamais esquecidos.</p>
<p style="text-align:justify;">Passo pela Opera e me dirijo ao escritório do <em>Daily Telegraph</em>, onde deixo o recado para Michael. Encontro após o almoço com D.Niomar e Giuliana, ajudando-me a fazer algumas compras por pedidos. Falávamos em italiano, pois sempre que sós, nosso assunto predileto eram memórias do estado de espírito genovês. Presente Michael, vinha-nos o respeito por virtudes britânicas.</p>
<p style="text-align:justify;">Brasil: como a criatura admirável amava o Rio de Janeiro, residindo o casal na rua Osvaldo Cruz, onde o Flamengo misturava-se a Botafogo. Eu e Ana Elisa não perdíamos os seus almoços e jantares. Lá conhecemos Carlos Tavares, Benedito Moreira e respectivas esposas: ali morou Michael em derradeiros anos de correspondente.</p>
<p style="text-align:justify;">Solitário pelo <em>Boulevard des Italiens</em>, por cujos cafés <em>Anglais e Tortoni</em> rolaram pobres e ricos como Oscar Wilde<em> et caterva. </em>Ele, abandonado pelos<em> </em>antigos admiradores, exibia a arrogância desesperada, que se mostrava complacente com o pobre diabo.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas os  intelectuais franceses apenas o cumprimentavam; certo romancista encontrou-o no murmúrio  de versos de sua Balada: <em>I know not whether Laws be right, Or whether Laws be wrong; All that we know who lie in gaol Is that the wall is strong; And that each day is like a year, A year whose days are long.</em></p>
<p style="text-align:justify;"><em> </em>Creio que Harris, o mais realista dos biógrafos de Wilde, tenha razão quanto ao impulso masoquista de seu amigo, preferindo cumprir a pena dos tribunais a fugir como ladrão. Porém, lembremos que sua depressão sempre esbarrava com o velho ponto de vista de <em>que Paris bem vale uma missa</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">O que não ocorreria com Sá Carneiro, ainda que este se mostrasse autêntico em sua desgraça, sabendo mesmo até suicidar-se. Era, porém, português, sustentava-se na subjetividade genial de seu amigo Fernando Pessoa. Mas tragédia viria tão depois que não adianta comentá-la.</p>
<p style="text-align:justify;">Jantei no <em>Le Lotti</em> com Michael e Giuliana. Aquele abordava o tema ainda pouco estudado porque vigente. Tratava-se do sistema militar brasileiro que perdurava e era preciso estudá-lo sem preconceito, pois, do ponto de vista da economia, o País crescia no panorama da diversidade dos demais regimes.</p>
<p style="text-align:justify;">O jornalista trouxera muito material e acreditava que o seu anfitrião sempre seria propenso ao compromisso histórico que eu adotara quando publiquei minha <em>Consciência Conservadora no Brasil.</em></p>
<p style="text-align:justify;">Sim<em>, est modus in rebus, </em>pois, <em>procastinare lusitanum est, </em>ou seja, é duvidoso que nossos líderes articuladores, no sentido que lhe deu Voegelin, são de fundo tradicionalista português, amenizado por toque pombalino. Não fosse o último, o que teria acontecido? A resposta reside na <em>incerteza</em>, estatística, como suporia Karl Popper no rumo de Schoredinger.</p>
<p style="text-align:justify;">Eis, aí, meus amigos, em que dão tanto a estatística quanto a própria complementaridade. Deus nos acuda de tantos sofismas. Tudo isso é a chamada ciência, imaginem a filosofia.</p>
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		<item>
		<title>Os Degraus das Missões</title>
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		<pubDate>Sun, 08 Nov 2009 18:11:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[Atlântico, 1-10, 1975, 4ª feira.
Às 22h30 embarquei e nos mandamos para o outro lado do mundo. Viagem suave, diria agradável, lendo e refletindo. Talvez tenha deixado o meu escritório em ordem, pois no caminhar para dezembro as coisas se acomodam no Brasil em espetáculo de dolce far niente.
Hannibal me telefonara há dez dias, convidando-me para [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=430&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;">Atlântico, 1-10, 1975, 4ª feira.</p>
<p style="text-align:justify;">Às 22h30 embarquei e nos mandamos para o outro lado do mundo. Viagem suave, diria agradável, lendo e refletindo. Talvez tenha deixado o meu escritório em ordem, pois no caminhar para dezembro as coisas se acomodam no Brasil em espetáculo de <em>dolce far niente</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Hannibal me telefonara há dez dias, convidando-me para o Encontro em Madrid, pedindo-me a presença. Esclarecia que do Ensino não fugisse por motivo de afazeres. O melhor argumento consistia em oportunidade de ouvir a propósito a sábia palavra de Hermínia. Meu trabalho prometido há algum tempo dizia respeito a Mircea Eliade ou, se fosse melhor, ofertasse alguma reflexão sobre a natureza do homem. Enfim,  fixava-se ela no <em>Pagoyum</em>, como é conhecido o terceiro livro que trata do <em>Ente Naturali.</em></p>
<p style="text-align:justify;">A vivência<em> </em>da<em> </em>Metapsicologia em minha vida até então consistira em retirar, sem avisar meu pai, livros para leitura, em sua Biblioteca. Vigilante quanto à minha formação, advertiu-me certa feita de que havia relação razoável entre a fase juvenil e os assuntos a serem perquiridos.</p>
<p style="text-align:justify;">Queria dizer que era cedo a fim de que pudesse entender autores como Carlos Richet, Soudre, mesmo Lombroso, em temas como aqueles que me entrigaram, relativos à Josefina Paladino.</p>
<p style="text-align:justify;">Creio mesmo que meu interesse se deu quando o menino Jurandy, em Alvorada, distrito de Carangola, acordou certa manhã sem entender palavra alguma em português, falando correntemente em francês.</p>
<p style="text-align:justify;">A família Ferreira levou naturalmente a criança aos médicos que nada disseram sobre o fato, recomendando que o trouxessem ao Rio de Janeiro.</p>
<p style="text-align:justify;">Aqui os doutores o examinaram e ficaram surpresos diante da pronúncia correta do idioma. Nada a fazer.</p>
<p style="text-align:justify;">Argumento que hoje compreendo em razão da complexidade do fenômeno e por fim, ao ignorarem o episódio de G. Paladino, só resolvido, segundo a única versão, por hipnose.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu não confiava nessa disciplina porque, por experiência, sabia da comunicação telepática entre o ator e o paciente. Meu amigo Karl Weissmann, em livro sobre a matéria, acatava o mesmo ponto de vista de que a sugerência era como misteriosa ordem que vinha inserida no modo de abordagem à relação inicial.</p>
<p style="text-align:justify;">Não havia exceção entre os ingleses, talvez mau exemplo, mas nos lembremos do que ocorrera com Maurice Maeterlinck, e no Brasil com o escritor e poeta Bittencourt Sampaio, que só trouxe resultados no acatamento religioso ao espiritismo.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas o tema não seria, a respeito e sim acerca de Mircea e síntese de seus trabalhos.</p>
<p style="text-align:justify;">Bem, concluía, prometera à Sra Niomar Sodré ir até Paris para expor o andamento da quebra de seu matutino <em>Correio da Manhã</em></p>
<p style="text-align:justify;">Às cinco horas, em Paris, batia à Gerência do Madeleine Palace, e fui às chamadas locais após saber as notícias de casa. Em verdade, tínhamos chegado ao Orly um quarto depois das l5 horas. A escala em Lisboa havia atrasado a viagem sem qualquer explicação.</p>
<p style="text-align:justify;">Jantamos no <em>Bar des Theatres</em> com minhas duas clientes expondo-lhes eu o andamento das causas. A exigência da jornalista sempre era o ponto de partida para a estratégia do bom êxito na empreitada judiciária: seus funcionários não poderiam ser prejudicados em único centavo.</p>
<p style="text-align:justify;">Era o imperativo categórico que a guiava naquela conjuntura. Mulher admirável, dirigida por ética de responsabilidade, admirada pelas amigas tanto as de Paris, famosas pela beleza e compostura, quanto aos amigos do Rio e São Paulo. Osvaldo Peralva, diretor, Newton Rodrigues, chefe da Redação, Gilberto Paim, do Suplemento Econômico, Paulo Francis e Álvaro Lins, editorialistas, o Ministro Nascimento Silva, conselheiro.</p>
<p style="text-align:justify;">No ambiente tranqüilo do restaurante, minha explicação foi breve e sem formalismo jurídico. À tentativa de tansferir aos <em>Irmãos Bobagens</em>, que, em rescisão abrupta lhes devolveram o matutino, foram exigidas as obrigações fiscais e previdenciárias sob pena de execução. Os credores quirografários agiram honestamente e as composições se efetuaram judicialmente em função dos direitos trabalhistas.</p>
<p style="text-align:justify;">O sistema militar, por seu executivo, não fez pressão qualquer junto ao Judiciário no sentido de perseguição ideológica, toda a tramitação era dirigida sem preconceito do ponto de vista exageradamente liberal que D. Niomar Muniz Sodré Bittencourt imprimira à sua orientação.</p>
<p style="text-align:justify;">Quanto à minha outra cliente, tudo fora resolvido com facilidade decorrente da citação por correio, já concedida a liminar.</p>
<p style="text-align:justify;">Já à noite passamos à recepção dada por brasileira residente em Vendôme, à direita de quem passa pela rua Castigliani. Quanta coisa aprendi, então, sobre a fase histórica do Estado Novo. Vargas chegara em 1930, vindo do Sul, não só com aventureiros, também com criaturas sagazes e cultas, desde Oswaldo Aranha, Simões Lopes, Francisco Campos e o que havia de melhor entre os tenentes do Forte de Copacabana e militares da nova geração da estatura de Ernesto Geisel e Juracy Magalhães. As mulheres elegantes, belas e inteligentes desfilavam discretamente pela passarela do cassino Atlântico, observando, pesquisando, brilhando, enfim, como Adalgisa Nery e outras imperatrizes.</p>
<p style="text-align:justify;">O Presidente Vargas, como também era chamado, jamais comparecia, salvo para ouvir uma ou outra cantora estrangeira.</p>
<p>A maioria dos olhos voltava-se sempre em direção à Aimée de Heeren, nascida Sotto Mayor, a grande paixão de Getúlio e Assis Chateubriand.</p>
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		<title>O paradoxo dos fusos-horários</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Oct 2009 17:26:37 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Atlântico, 20.6.75. 6ª feira.
Despeço-me, mais uma vez, de Portugal. Não me foi possível rever o Minho, estar com Luis Carlos, Conceição e irmãs, menos ainda de passar por Leça de Balio a fim de ouvir o silêncio da noite.
O giro pela cidade muda com os amigos do Porto, torna-se a perspectiva de outro tempo posta [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=426&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;"><strong>Atlântico, 20.6.75. 6ª feira.</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Despeço-me, mais uma vez, de Portugal. Não me foi possível rever o Minho, estar com Luis Carlos, Conceição e irmãs, menos ainda de passar por Leça de Balio a fim de ouvir o silêncio da noite.</p>
<p style="text-align:justify;">O giro pela cidade muda com os amigos do Porto, torna-se a perspectiva de outro tempo posta no futuro. Onde estará o planeta em seu caminho?</p>
<p style="text-align:justify;">A despedida de Lisboa sempre se depara com o Chiado, a Brasileira, a travessia, afinal para dar o adeus à Praça de onde Fernando Pessoa seguiu para esquecer Lisboa “com as metafísicas perdidas nos cantos de cafés de toda a parte”.</p>
<p style="text-align:justify;">Então, sem projeto, subi e subi à cata dos bares antigos e dobrei à direita para descer até o solo da Catedral atingida pelo terremoto. Estava sem companhia a lembrar do tempo de guerra, de Lisboa com Salazar, orando, por certo indeciso se devia ou não, em proteção dos nossos navios mercantes, ceder espaço em Ponta Delgada a fim de se varrerem os submarinos alemães do Atlântico.</p>
<p style="text-align:justify;">Abaixei-me para apoderar-me de pequeno bloco com desbotado sinal de desenho, ali, provavelmente há mais de duzentos anos.</p>
<p style="text-align:justify;">Não mais o deixei e pessoa alguma havia naquele vazio do passado que pudesse tê-lo como lembrança. Confundia-me em dois planos do tempo, esquecido de meu parceiro a perguntar-me o que eram aquelas meias ruínas.</p>
<p style="text-align:justify;">Um quarteirão além da atual Santa Casa, o bar com pessoas sentadas, a beberem o terrível conhaque lusitano, nada sabiam e, no entanto, abrigava o poeta naquelas noites frias do decênio de vinte.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim correram a manhã e parte da tarde. Encontrando-me com Michael Fields no saguão do Tivoli, disse-me ele que eu me atrasara hora e meia para o encontro, mas que havia tempo. Eram três horas quando chegamos ao Pub em companhia de Amaral de Sampaio, sempre atento aos acontecimentos políticos.</p>
<p style="text-align:justify;">Desse modo, o dia avançava tanto na rotação quanto na translação. Era preciso arrumar as malas, despedir-me de Ângelo de Almeida, agradecer mais uma vez o jantar de ontem no Casino Estoril, telefonar para Ana Elisa.</p>
<p style="text-align:justify;">Apesar do cansaço, introduzi em minha viagem, por três horas seguidas, o exercício do self-rembering uma vez que fora intenso o passeio e minhas anotações no Diário são sempre garranchos porque feitas à noite.</p>
<p style="text-align:justify;">Com relação a meu livro – Portugal-Ano Zero – concluí que estivera certo em não considerar válida a possibilidade de resultado comunista em sua tentativa de fingir-se propenso para acatar o sistema democrático.</p>
<p style="text-align:justify;">Tudo se acomodaria por duas razões com as quais Ângelo acordara: Ao norte, forças contrárias, tanto populares quanto não, opunham-se ao comunismo e poderiam apenas suportar a experiência da social-democracia do modelo inglês; a influência política de Mário Soares seria apaziguada por sua prudência, e marxista, como se declarava, não se esquecendo de sua ambição política.</p>
<p style="text-align:justify;">Por fim, o tradicionalismo português, invencível em termos cristãos e moderados.</p>
<p style="text-align:justify;">O vôo, irregular, confundindo-me à noite com o malabarismo dos fusos horários. Nele, a gente sente a relatividade do tempo, pois, ora, é meia noite cá no Atlântico, e no Rio Ana Elisa e meus filhos estão a jantar, o que já fiz há quatro horas, cabendo-me considerar que pela manhã irei acordá-los cedo em caso de chegada a casa.</p>
<p style="text-align:justify;">Por conseguinte, não sigo para o destino do presente e, sim, ao passado.                Eis o paradoxo do movimento, revelando a sua universalidade e sua presença em todos os fenômenos naturais.</p>
<p style="text-align:justify;">Retornamos aos gregos: o movimento como realidade ontológica.</p>
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		<title>Despedida do Belo.</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Oct 2009 17:50:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>
		<category><![CDATA[paulo mercadante]]></category>
		<category><![CDATA[portugal]]></category>
		<category><![CDATA[sintra]]></category>

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		<description><![CDATA[Sintra,19.6.75. 5ªfeira.
Levanto-me cedo e tomo o café da manhã antes de subir até o Castelo dos Mouros.
Vestígios do passado que apenas se percebem por exercícios imaginários, uma vez que desde o Século XII o caminho percorrido era simples picadão, provavelmente disfarçado. Das referências clássicas, extraídas dos esforços de D. Afonso Henriques, pouca certeza obtemos de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=418&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;">Sintra,19.6.75. 5ªfeira.</p>
<p style="text-align:justify;">Levanto-me cedo e tomo o café da manhã antes de subir até o Castelo dos Mouros.</p>
<p style="text-align:justify;">Vestígios do passado que apenas se percebem por exercícios imaginários, uma vez que desde o Século XII o caminho percorrido era simples picadão, provavelmente disfarçado. Das referências clássicas, extraídas dos esforços de D. Afonso Henriques, pouca certeza obtemos de como os combates se travaram, mas o curioso acha-se nos cuidados com as defesas das encostas, ali ainda vivas e sólidas. A serra está diante de nossos olhos, circunstância que nos leva a suposições logísticas do ataque final português.</p>
<p style="text-align:justify;">As lápides romanas com letreiros levam-nos a pensar em termos de estupor em face da audácia manifestada por centuriões.</p>
<p style="text-align:justify;">Teria Poncio Pilatos por cá passado, vindo das Gálias? Byron, é certo, trouxe aqui Shelley a fim de ver a beleza da vista. E nele falando, disse-me o gerente do albergue, onde dormi, que várias vezes ali se hopedara o poeta inglês. Não sei, pois aqui há dezenas de lendas e meias-verdades sobre viajantes famosos do passado ao presente.</p>
<p style="text-align:justify;">Vasculhei o que pude para entender o Castelo, sem visitas, sem turistas, sem vigilância alguma.</p>
<p style="text-align:justify;">A minha volta suscitou diversas suposições que se esvaíram. O que ocorrerá com a passagem do tempo? Aqui hei de voltar.</p>
<p style="text-align:justify;">Jantar marcado em Cascais com Ângelo. O encontro no Cassino as 9:30 e retorno ao meu cômodo, outra vez indo à Praça para o almoço, só, observando que o ônibus de Lisboa trazia turistas para a visita ao Palácio Real.</p>
<p style="text-align:justify;">Cheguei a Cascais no final da tarde e no saguão encontrei o amigo com a esposa, elegante e tranqüila. Quem diria?, pensei. Este cavalheiro, despido de vaidade, foi o bastonário da Ordem dos Advogado que unificou grupos militares em divergências. Com alguns coronéis conhecidos, recolhi a descrição daquela eminência parda, como se fosse o retrato tirado por Erich Voegelin e Aldous Huxley em seus conceitos. Sim, porque estamos a par do que significa o líder articulador em países subdesenvolvidos, bem como os seus modelos romanos na era de ditadores e tiranos.</p>
<p style="text-align:justify;">Assistimos ao show, após a refeição, Elsa Coimbra cantando fados e outro espetáculo de Kaye Sisters. No Cassino, poucos portuguêses, o que realçava o preconceito da Esquerda lisboeta a esse tipo de entretenimento.</p>
<p style="text-align:justify;">Ângelo de Almeida revelou-me pormenores que lhe dificultaram a missão pacificadora no período anterior à derrubada de Marcelo Caetano, bem como aspectos da atuação de Mário Soares quando de sua postura inicial.</p>
<p style="text-align:justify;">Levou-me, depois a Lisboa, deixando-me no hotel. Na condição de motorista, Ângelo não era a habilidade de convencer os parceiros. Alguns sustos no percurso, afinal superados quando subi o elevador do Tivoli.</p>
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		<title>Sintra: Rápida Visita</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Oct 2009 18:35:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[Sintra, 18.6.1975.4ª feira.
Sigo para o meu destino em cada dia, quase bate o carro por imprudência de meu motorista, mas apenas susto a que já estou habituado.
Há tempos penso em Sintra e quem não jamais a esquece. Sinto-a em Camões e em Eça, fases iguais de minha puberdade. Por dessas coincidências da vida, com a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=415&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;">Sintra, 18.6.1975.4ª feira.</p>
<p style="text-align:justify;">Sigo para o meu destino em cada dia, quase bate o carro por imprudência de meu motorista, mas apenas susto a que já estou habituado.</p>
<p style="text-align:justify;">Há tempos penso em Sintra e quem não jamais a esquece. Sinto-a em Camões e em Eça, fases iguais de minha puberdade. Por dessas coincidências da vida, com a paisagem, primeiramente, graças ao testemunho do épico em seus Lusíadas: no terceiro canto, permita que lembre de meu pai nos anos trinta.</p>
<p>Sintra, onde as Naiades escondidas:</p>
<p style="text-align:right;">Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,<br />
Onde Amor as enreda brandamente,<br />
Nas águas acendendo fogo ardente.</p>
<p style="text-align:justify;">Algum tempo depois, nela convivi com personagens de <em>Os Maias</em>, ao deixar Eça que seu maldoso sarcasmo caisse sobre o Alencar do Alenquer. Prevalece em meu espírito a estrofe do épico sobre o romancista por pormenor do contraste <em>fria-Sintra</em> e <em>fogo-ardente,</em> a primeira imagem, que minha memória identifica.</p>
<p style="text-align:justify;">A quarenta quilômetros de Lisboa, levamos meia hora de trajeto, descendo eu em sua praça diante do Paço Real, onde, após a bica, retornei, fixado nos filhos de D. João 1º, cujos cômodos nos confundem pela simplicidade da época. Do mesmo modo, ora, pois, dos aposentos de D. Sebastião à ante-sala onde Camões o fez ouvir seus versos.</p>
<p style="text-align:justify;">Pela segunda vez subo todos os degraus do interior. Hoje, porém, minha vontade volta-se ao percurso de Byron, do centro pelo caminho que nos levará a Cascais em floresta cortada por estrada estreita com paleolíticos, romanos e árabes ocultando suas moradas entre os arvoredos.</p>
<p style="text-align:justify;">Não sei se real já na versão haja ainda amendoeiras milenares, mas bela é a subida até o Castelo árabe que a fiz desde o parque diante dos <em>Palácios</em> <em>dos Seteais </em>até o<em> </em>cume das ruínas.</p>
<p style="text-align:justify;">Escurecia quando voltei e tomando a ida para Lisboa, onde cheguei reclamando o banho para o jantar com Michael e seus companheiros correspondentes.</p>
<p style="text-align:justify;">O Conselho da Revolução ora cogita de averiguar a violência sobre presos políticos durante o sistema socialista e Ângelo de Almeida Ribeiro estava a par de todas as intenções dos militares e advogados que julgavam necessária a apuração.</p>
<p style="text-align:justify;">Tudo certo, em princípio, porém, após o Movimento de Abril se confirmavam outros abusos dos vitoriosos.</p>
<p style="text-align:justify;">Ângelo também conosco naquele jantar revelou-nos que a Ordem dos Advogados estava atenta àquelas situações. Ainda há poucos dias um cidadão em Ponta Delgada, Açores, queixava-se à Comissão que fora preso, de modo arbitrário e sob ameaça, sofrendo em sua cela tratamento desumano e degradante.</p>
<p style="text-align:justify;">Recente, há duas semanas, o Relatório apresentava o quadro de trinta indivíduos a visarem a independência de Açores, tentativa ao arrepio da legitimidade de Portugal quanto à Ilha, descoberta pelo Infante D. Henrique, o Navegador, filho primogênito de D. João 1º.</p>
<p style="text-align:justify;">A inconfidência repercutira na Ilha Terceira, segundo as diligências. Mas a questão, bem elucidada, encontrou métodos de tortura durante a apuração e tal fato repugnara à Ordem dos Advogados.</p>
<p style="text-align:justify;">São fatos naturais após ações revolucionárias vitoriosas. No Brasil, o mesmo ocorrera em 1930 quando os tenentes e o Partido Republicano Mineiro derrubaram o Governo constituído e alegando fraude eleitoral, perseguiram os vencidos, sem, no entanto, levá-los à tortura.</p>
<p style="text-align:justify;">Assim ocorre com o princípio hegeliano de que o <em>real é racional, </em>levando o<em> estado de direito</em> novo sobrepor-se ao <em>direito anterior, </em>tornar-se legítimo por razões expostas com brilho pelo positivismo jurídico italiano.</p>
<p style="text-align:justify;">Tenho dito, expressou-se o Mestre Nelson Hungria, no julgamento do <em>writ</em> impetrado pela União Democrática Brasileira contra ato das Forças Armadas diante de planejado <em>golpe de estado </em>em preparo pela oposição derrotada de Carlos de Lacerda <em>et caterva</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Aos jovens que nada viram e menos leram a respeito, apenas o conselho de avaliar o que representa o Direito Público em face da realidade das coisas. Tenho dito.</p>
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	</item>
		<item>
		<title>Linha Dura x Radicais</title>
		<link>http://pmercadante.wordpress.com/2009/10/10/linha-dura-x-radicais/</link>
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		<pubDate>Sat, 10 Oct 2009 18:39:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[Lisboa, 17.6.1975,  3ª feira.
Em Jerônimos com Michael e por perto almoçamos. Por ali caminhamos a observar pouco movimento, ausência de turistas, diferenças entre Lisboa antiga e atual.
Meu amigo sofria as saudades do Brasil, bem como lamentava as pressões que seu jornal Daily Telegraph recebera do Governo brasileiro para substitui-lo como correspondente. Como explicá-las?
Assunto que tão [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=412&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;"><strong>Lisboa, 17.6.1975,  3ª feira.</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Em Jerônimos com Michael e por perto almoçamos. Por ali caminhamos a observar pouco movimento, ausência de turistas, diferenças entre Lisboa antiga e atual.</p>
<p style="text-align:justify;">Meu amigo sofria as saudades do Brasil, bem como lamentava as pressões que seu jornal <em>Daily Telegraph </em>recebera do Governo brasileiro para substitui-lo como correspondente. Como explicá-las?</p>
<p style="text-align:justify;">Assunto que tão me deixara surpreso, pois a Michael, como conservador que era, não escapara que à Esquerda faltas compreensão do momento histórico e que procurava radicalizar a situação política sem levar em conta o bom êxito da economia, o que irritava a facção militar à procura de acalmar a ação terrorista com o programa de próxima abertura.  Seqüestro a Embaixadores, assaltos a bancos e assassinatos de militares e empresários desencadeados com freqüência.</p>
<p style="text-align:justify;">Tão conciliador mostava-se o chamado <em>grupo Sorbonne, </em>que seu ideólogo General Golberi sempre recebia secretamente partidários de linha comunista moderada, o que muito parecia com o estado de coisas em 1942 segundo a <em>Liga de Defesa Nacional.</em></p>
<p style="text-align:justify;">General Rabello, então influente junto aos quadros da <em>Sociedade</em> <em>Amigos da Améria </em>trouxera ou fora trazido por grupo que cercava o Ministro Oswaldo Aranha, circunstância que Vargas admitia, porém fazendo restrição às eleições presidenciais naquele momento em que o Brasil passara a apoiar abertamente os aliados e mesmo cooperar com Roosevelt.</p>
<p style="text-align:justify;">Médice, logo de início a seu governo, leu dois discursos anunciando que em sua gestão o processo político seria aperfeiçoado. O <em>Serviço Nacional de Informações</em> disso<em> </em>tinha conhecimento, apoiando-o.</p>
<p style="text-align:justify;">Segundo Hermógenes Príncipe, político baiano de grande percepção, armou-se com Jorge Serpa a proposta para o seu discurso de posse.</p>
<p style="text-align:justify;">Tal imprudência acabava de dar força à<em> linha dura </em>dos militares e dos próprios conservadores que preferiam a estratégia planejada por Castelo Branco e acatada por Costa e Silva: <em>a linha moderada para alcançar o estado de direito</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Michael, em sua coluna do <em>Daily Telegraph</em>, como redator, descreveu o quadro político de então, o que desagradou os mais radicais. Oficialmente <em>Médice</em> não teve conhecimento de que o Itamarati iria tecer os pauzinhos para as suas estrepolias.</p>
<p style="text-align:justify;">O jornalista, admirador do Brasil, não compreendeu o <em>imbróglio</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">À tarde, após passar pelo Hotel, seguimos de carro até a Fundação Calouste Gulbenkian, que estava com pouco movimento.</p>
<p style="text-align:justify;">À noite, enquanto ia eu para as Portas de Santo Antão, Fields partia para uma entrevista com um grupo do O Porto que por aqui faz o balanço da confusão montada pelos esquerdistas.</p>
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	</item>
		<item>
		<title>Estilo em ritmo de mudança</title>
		<link>http://pmercadante.wordpress.com/2009/10/03/estilo-em-ritmo-de-mudanca/</link>
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		<pubDate>Sat, 03 Oct 2009 18:02:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[                                                           Lisboa, 16.6.75. 2ª feira
 Chiado e Rossio, almoço com Michael no Tivoli. Escritório de Ângelo à tarde e jantamos no Carmo. São vinte e três horas, tudo vazio, descemos pela Garrett.
Falei-lhe sobre o meu Portugal-Ano-Zero, considerando que muita matéria escapara, mas, respondia ele, gostara da síntese e da exposição sem parcialidade quanto havia de real. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=408&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;">                                                      <strong>     Lisboa, 16.6.75. 2ª feira</strong></p>
<p style="text-align:justify;"> Chiado e Rossio, almoço com Michael no Tivoli. Escritório de Ângelo à tarde e jantamos no Carmo. São vinte e três horas, tudo vazio, descemos pela Garrett.</p>
<p style="text-align:justify;">Falei-lhe sobre o meu <em>Portugal-Ano-Zero</em>, considerando que muita matéria escapara, mas, respondia ele, gostara da síntese e da exposição sem parcialidade quanto havia de real. Entrou a expor-me sobre o que vinha, notícias do Porto, mobilização de adversários para o que der e vier, em caso de implantação de sistema radical. Peguntou-me sobre o que achavam os correspondentes por saber que Michael, onde andava, era sempre o mais respeitado.</p>
<p style="text-align:justify;">O que dizem é óbvio. <em>Álvaro Cunhal</em> é um bolchevista, quer dizer, está com a maioria. O Partidão português é como o francês, alinha-se sem discussão com Moscou. e os soviéticos já mandaram o recado: “<em>obtenham boa votação, não criem caso com o socialismo, nem procurem influir em sua prudência</em>”.</p>
<p style="text-align:justify;">O problema está em que o leninismo sempre citava Engels quanto à condição dos socais-democratas: trata-se de companheiros ruborizados, isto é, não assumem por medo da burguesia conservadora.</p>
<p style="text-align:justify;">Enfim, na Esquerda em geral, os adeptos também sabem manteer-se em cima do muro. Mario Soares é professor nesse assunto. Usa a simpatia conhecida, dividindo-se entre os partidários de Bernstein e Lenine. Ele vai repetir a dose de marxismo mitigado, fugindo dos subterfúgios de Adriano Palma Carlos e do próprio Presidente Antonio de Spínola.</p>
<p style="text-align:justify;">As tendências multiplicaram-se, em verdade, por motivo de número expressivo de facções, pois as linhas justas e injustas abundam.</p>
<p style="text-align:justify;">Porém as mudanças nos modos de viver, de comportar-se nascem, dia a dia, permitindo-nos senti-las nas raparigas, como se exprimem os portugueses, tanto Camilo Castelo Branco quanto o próprio Eça. Muitas e muitas usam maquilar-se para o trabalho, com rouge e batom, corte bem mais curto nos cabelos, sem contar a presença de moças nas passeatas. Abraçadas ou salientes, exibindo-se sem as maneiras dos tempos duros.</p>
<p style="text-align:justify;">Da mesma forma, o formalismo sofre com os modos masculinos de comportamento social, uma vez aberto, fugindo-se ao tratamento anterior de excelência. Sente-se mesmo que a extroversão adquire o tom surdo do passado, ocorrendo nas lojas melhor diálogo com o cliente, ou seja, maior leveza em pedidos de esclarecimento.</p>
<p style="text-align:justify;">Michael comenta, como britânico, essas sutilezas da vida, produzidas por mudanças políticas e sociais. Nós, brasileiros, temos ainda o tratamento cordial. Sentimos que apesar de algumas reclamações quanto ao nosso modo de confundi-los com a pressa de viajante ou turista, eles também se divertem com o nosso coloquial.</p>
<p style="text-align:justify;">Sinto-me bem em Lisboa, tanto quanto em Roma e Nápoles. Não é para menos, pelo lado paterno e materno, sou de raízes latinas nos últimos quinhentos anos. Diz a Genética moderna que isso é apenas um dia em dezenas de milhares de anos. Felizmente, afinal, somos ainda neolíticos.</p>
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		<title>O começo do emaranhado</title>
		<link>http://pmercadante.wordpress.com/2009/09/26/o-comeco-do-emaranhado/</link>
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		<pubDate>Sat, 26 Sep 2009 18:56:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>
		<category><![CDATA[A balbúrdia política em Portugal]]></category>
		<category><![CDATA[O recado de Moscou]]></category>
		<category><![CDATA[Revolução dos Cravos]]></category>

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		<description><![CDATA[Lisboa, 15.06.75, Domingo.
Cheguei ao Tivoli Hotel , às 14h30, bem disposto, ainda que saudoso de Paris, e após alojar-me, encontro Michael Fields no bar, em conversa com Beatriz Costa.
Ela, como sempre simpática, em sua vida tranqüila e saudosa do Brasil, assustada com os acontecimentos em Portugal.
Despedimo-nos e juntos descemos a Avenida da Liberdade em direção [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=402&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;"><strong>Lisboa, 15.06.75, Domingo</strong>.</p>
<p style="text-align:justify;">Cheguei ao Tivoli Hotel , às 14h30, bem disposto, ainda que saudoso de Paris, e após alojar-me, encontro Michael Fields no bar, em conversa com Beatriz Costa.</p>
<p style="text-align:justify;">Ela, como sempre simpática, em sua vida tranqüila e saudosa do Brasil, assustada com os acontecimentos em Portugal.</p>
<p style="text-align:justify;">Despedimo-nos e juntos descemos a Avenida da Liberdade em direção ao Rossio. Michael com entrevista agendada; eu segui até a Ordem dos Advogados no Largo São Domingos.</p>
<p style="text-align:justify;">Domingo, pelo começo da tarde, Ângelo me aguardava, o porteiro abriu as portas e conduziu-me à Biblioteca. A Ordem, que tanto se empenhara para a Revolução, observava o andar do processo político.</p>
<p style="text-align:justify;">A proclamação trazia o selo da tradição lusitana: <em>nosso</em> <em>Movimento é português:</em> <em>nasceu cá, dos nossos problemas</em>. Declaravam em Manifesto as <em>Forças Arma</em>das que estavam desiludidos com as guerras coloniais, certos de que, pela força, nunca venceriam os guerrilheiros de Angola e Moçambique, bem como de outras pequenas províncias ultramarinas.</p>
<p style="text-align:justify;">O grupo rebelde, fechado e disposto, contava com aproximadamente 15% dos oficiais ativos das três armas. Conderando o efetivo armado, podemos avaliar em pouco mais de trezentos os membros de agrupamento revolucionário, em sua maioria capitães e majores. Em cada arma constituiu-se o <em>Conselho</em> que elege seus representantes junto à <em>Comissão Coordenadora</em>, composta de sete membros, sendo três do Exército, dois da Marinha e dois da Aeronáutica.</p>
<p style="text-align:justify;">Tratava-se da missão do <em>Programa</em>, não se sobrepondo ao poder político, mas à submissão ao poder legítimo, oriundo do voto popular, não excluída a defesa dos princípios, cujo objetivo parece ser o aperfeiçoamento do levante de abril.</p>
<p style="text-align:justify;">O M.F.A, nascido sem liderança, não se encontra comprometido a qualquer movimento político. <em>Estamos em uma causa, queremos a democracia</em>.</p>
<p style="text-align:justify;">Mas, dizia-me Ângelo, sem dúvida a voz serena do bom senso português, a Esquerda parece estar engajada no pensamento que inspira o sentido democrático. Mas, como crer na Esquerda afeita à ética da finalidade. Os fins justificam os meios, eis o que ela proclama na trilha dr Torquemada. O que provavelmente a colocará no círculo de crise insustentável, pois havia no quadro os radicais da linha chinesa.</p>
<p style="text-align:justify;">Ângelo me explicava que a conjuntura era de perplexidade dos liberais. Lisboa via saírem do País centenas de perseguidos pela espécie de <em>Poder Paralelo</em> formado por Esquerdistas radicais. Nada podia fazer a Ordem dos Advogados e nada estruturado ainda nascera.</p>
<p style="text-align:justify;">Voltei ao Hotel para rápido descanso e à noite para jantar. Michael me levou ao <em>Pub</em> dos <em>Correspondentes de Imprensa.</em> Lá também chegou, a meu convite, o anti-salazarista que Antônio Paim conhecera em Moscou, desencantado já então com o sistema estalinista, porém sem outra alternativa, uma vez que, se retornasse a Portugal salazarista, a polícia o prenderia.</p>
<p style="text-align:justify;">Dessa vez, entrara em cena o surrealismo. O grupo que se pusera à margem da Polícia Política soviética, mais chegado, pois, à Internacional Comunista que atuava como corpo secreto, deu-lhe a missão e o passaporte a fim de que avisasse o Partido Comunista Português, ora já atuante, de que não radicalizassem as posições para que não se criasse situação desconfortável com os países de sistema democrático.</p>
<p style="text-align:justify;">Ele voltara a seu País e levara a Álvaro Cunhal, secretário do P.C.P. o aviso tático por motivo da posição geográfica portuguesa, circunstância que consistia em provocação aos EE.UU.</p>
<p style="text-align:justify;">A respeito de ser tema inconveniente, com todo o jeito de provocação, o antigo membro da facção vermelha, foragido por mais de trinta anos na União Soviética, nada comentou conosco a respeito. Com jornalista é assim: todo o cuidado é necessário, comprometem até a própria mãe.</p>
<p style="text-align:justify;">Toda essa história, se voltarmos ao final do decênio de cinqüenta, é um emaranhado só inteligível após a leitura do <em>Retrato</em>, de Osvaldo Peralva, livro que ficará à posteridade para que nossos descendentes possam perceber o sinistro papel do extinto comunismo soviético. No livro, de dificílimo encontro, é posto como personagem o sinistro Sivólobov, figura desprezível que dava ordens aos dirigentes comunistas brasileiros. Nunca viera ao Brasil, não lia nem falava o português, e dissertava, sem nada saber, sobre o problema agrário brasileiro, comparando-o ao chinês.</p>
<p style="text-align:justify;">Suas cartas ao Secretariado de Diógenes Arruda eram exibidas, fechadas em envelope comum, como escritas por Stáline. A história é lamentável.</p>
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		<title>Aspirada Visita</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Sep 2009 18:50:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>pmercadante</dc:creator>
				<category><![CDATA[Diário]]></category>

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		<description><![CDATA[ Versalhes, 14.6.1975. Sábado
 Pelas sete e meia da manhã, deixo o Hotel e tomo o carro que me levará a Versalhes. A vinte quilômetros de Paris, salto à entrada dos Jardins, fixado no que sempre pensara desde a adolescência, quando a leitura me proporcionou acatar o ponto de vista de que a literatura é a antropologia [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=pmercadante.wordpress.com&blog=2505374&post=399&subd=pmercadante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p style="text-align:right;"><strong> Versalhes, 14.6.1975. Sábado</strong></p>
<p style="text-align:justify;"> Pelas sete e meia da manhã, deixo o Hotel e tomo o carro que me levará a Versalhes. A vinte quilômetros de Paris, salto à entrada dos Jardins, fixado no que sempre pensara desde a adolescência, quando a leitura me proporcionou acatar o ponto de vista de que a literatura é a antropologia da antropologia.</p>
<p style="text-align:justify;">Em 1937, aos treze anos e meio, por razão de saúde, interrompi o meu curso ginasial e fui liberado das aulas da manhã. Assim ocorreu e em repouso logrei chegar a alguns entendimentos sobre o que se dera no Ocidente.</p>
<p style="text-align:justify;">Desse modo, aceitei o ponto de vista de que a partir de Luís XIII tivera início a decadência da nobreza na França.</p>
<p style="text-align:justify;">O então soberano, em face de suas limitações, guiado pelo Cardeal Richelieu e por sua Eminência Parda, Irmão Tremblay, logrou a consolidação da questão religiosa, inspirado na estratégia da mãe Maria de Médicis, Regente até a maioridade do Príncipe que se tornou Luís XIII.</p>
<p style="text-align:justify;">A partir dos primórdios do século dezessete, consolida-se o catolicismo e Versalhes viu nascerem-lhe as mudanças, aos poucos e intensamente com as sucessões de Luís XIV e XV. Até o final de Setecentos, ao instalar-se o Terror dos conhecidos tiranos Danton e Robespierre, os reis franceses sustentaram a decadência da nobreza.</p>
<p style="text-align:justify;">Versalhes tornar-se-ía uma Sodoma sofisticada, oculta do povo, mas percebida pelos intelectuais que constituíram o Iluminismo. Como em processo gramsciano, de nossa tempo, a geração de Rousseau e Voltaire, com o apoio de outros vultos ilustres, criaram a espécie de Nomenclatura que, por intermédio da Classe Média, levou a cabo com a Maçonaria, a derrubada da antiga classe e seus sustentáculos na nobreza pervertida e corrupta.</p>
<p style="text-align:justify;">Em Regresso ao passado da família real, então podemos seguir a trajetória de Richelieu, à adoção do <em>Estado sou Eu,</em> a displicência de Luis XV e, finalmente, a indolência de Luis XVI.</p>
<p style="text-align:justify;">Maria de Medicis me fascinava deveras. Em minha puberdade, consideradas críticas que lhe eram feitas, eu não as aceitava e muitas vezes sentia a ligeireza com que a interpretavam, quando, em verdade, vivera ela em época de profundas mudanças religiosas e radicais.</p>
<p style="text-align:justify;">A florentina sempre pensava em traições e astúcias da nobreza e, pois, movimentava-se no clima de incerteza.</p>
<p style="text-align:justify;">Saltei nos jardins de Versalhes e enquanto perambulava pelo sítio recordava-me de quando ali girara de jipe nos idos de 45 com meus dois complicados companheiros que só se comoviam em matéria de logística e contra-espionagem.</p>
<p style="text-align:justify;">Pela manhã, hoje, vejo-me por ali durante os reinados de Luis XIV e Luis XV.</p>
<p style="text-align:justify;">Girava pelos Jardins, vindo-me à lembrança do que ali tramaram os maçons de Cagliostro a fim de manchar a figura da Rainha Maria Antonieta para torná-la o símbolo da corrupção e desprezo pelo povo.</p>
<p style="text-align:justify;">Ao entrar no <em>palazzo </em>dei<em> </em>início ao<em> </em>que me faltara no passado: a riqueza desde a <em>Cour Royale</em> ao Museu Histórico.</p>
<p style="text-align:justify;">Com os passos vagarosos sigo para os grandes salões, desde a <em>Opera</em> e a <em>Capela</em> até os salões do rei e os de <em>Diana</em> com um busto de Luis XIV, de Bernini e assim por diante.</p>
<p style="text-align:justify;">Eu anotei em caderneta tudo o que me levará a consultar o que consta em minhas observações de leitura. É o que posso fazer diante do acervo.</p>
<p style="text-align:justify;">Pelas quatro da tarde, sem almoço, volto a Paris com o fito de meu último jantar, o que fiz quando chegado em <em>Lés Trois Bonheurs.</em></p>
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