Paris, 12.6.1975. 5ª feira
Estou no Madeleine–Palace durante a tarde, alojo-me no terceiro andar sem que , pela janela, possa sentir a atmosfera tranqüila de rive droit.
Minha cliente aguarda o chamado, o que faço mesmo antes do banho e mudança de vestuário. Irei ao seu apartamento em Trocadero a fim de discutir o andamento de nosso esforço por solução justa e humanística.
Antes, porém, quero rever o meu sítio querido a partir de Vendôme, alcançando Opera, tomando o café em frente ao Grande Hotel, relembrando, em forma de fotos desbotadas, minhas distantes e recentes passagens por ali.
Então passa das dezessete horas e sigo para Trocadero. Já não havia congestionamento e às vinte horas encontrei-me com o objeto da viagem e por duas prestei as informações necessárias.
Eis o dia partido, recebendo o impacto do passado. Michael Fields está em Lisboa, Giuliana me informa, falo a Hannibal em Londres para, afinal, descansar antes da meia-noite. Não há nada marcado em nosso Círculo para debate, e a instrução é prosseguir sobre matéria relacionada aos temas principais.
Sua última carta disso nos avisara, dando-me sugestões para o trabalho próximo.
Há qualquer traço forte em nossa melancólica incursão nos temas que transcendem nossas dúvidas.
Que vemos? As ciências puras em crise permanente, mas as aplicações científicas separam-se da teoria e avançam com celeridade. Contradição insuportável, caro companheiro, mas prossigamos, digo-lhe por telefone com certa intranqüilidade.
Qual o fundamento? A perseguir-nos. Enfim todos continuamos empenhados no entender entre o sentimento e o movimento. Não conseguimos responder a Kant.
Não me esqueço de ligar aos amigos Osvaldo Peralva e Newton Rodrigues que dirigiram o Correio da Manhã até a confissão de sua falência.
O problema caíra-me em mãos do ponto de vista legal e a estratégica processual obedecia ao princípio de não deixar um só funcionário sem a indenização a que fazia jus pela lei trabalhista. Tratava-se de imperativo categórico aceito por d. Niomar Sodré Bittencourt e traçado quando, a duras penas, decidiu pelo fechamento do matutino.
Tudo se fez por seu intento e ouvidos foram os seus amigos de redação, os já citados Peralva e Newton e ainda Paulo Francis, Gilberto Paim, além de seu ex-advogado Nascimento Silva, pessoa honrada e antigo membro do Clube do Caju na década de trinta.
A trajetória, tanto substantiva quanto adjetiva, corria rigorosamente exata e a corrente castelista no Governo jamais interferiu em matéria de justiça.
O Governo militar, em sua primeira fase, buscava tenazmente deter a inflação galopante dos anos populistas de Goulart e tentava absorver qualquer tipo de radicalização, fosse de direita ou esquerda. No entanto, o chamado grupo Sorbonne esbarrava com facções que temiam intentos extremistas e desafiava o próprio Presidente.
Este, antigo tenente dos anos trinta, mantinha-se em voltar ao pleno estado de direito e sua firmeza acabou por levá-lo ao princípio de que deveria e poderia concluir o mandato presidencial de Goulart.
Jantamos eu e Giuliana no Clube dos Correspondentes Estrangeiros, bem próximo à Saint Honoré, tendo lá encontrado e conosco sentado Kurt Klinger, jornalista alemão, autor também de conhecido livro sobre o Papa João XXIII.
Retornamos para levar Giuliana em casa e depois nos dirigimos aos respectivos destinos.