Leça do Balio, 23.11.74. Sábado.
Giramos pelo Porto. Venho observando. A reserva, a introspecção, a hospitalidade. Mas não é o certo. O desconfiado é o irmão quando ganha certeza da lealdade do peregrino. Assim ainda é em Minas, como em Portugal.
José Carlos foi ao trabalho, fiquei só e da Rua Santa Catarina, retornei e subi até a Catedral. Revisitá-la, certamente, observar o pátio e rever o ponto de partida dos lusitanos, quando do tempo das cruzadas.
Outra vez sento-me nos cafés e sinto a lembrança do Rio de minha chegada. O mesmo estilo. Há mais de vinte anos de agora, a guerra chegara até nós, Vargas não se definia, os alemães tomavam Smolenski e, em troca, os russos voltavam à era de Bonaparte, atirando-se à resistência suicida.
Na Catedral, circulo de altar em altar, sentindo a fadiga do passeio. Hoje, lição de arquitetura. A influência lisboetta, de raízes pombalinas. Os Almadas conseguiram, no século XVIII. A legislação inspirada em Pombal, de quem eram primos.
Mas O Porto não sofreu o terremoto para fazer a reforma profunda, conservou em suas tendências o influir de raízes barrocas do artista e arquiteto toscano Nasoni, autor da Torre dos Clérigos.
Mais tarde, os ingleses residentes na cidade deram-lhe o sabor neopaladiano. Tão importante para nós, pois de O Porto saiu para Minas Gerais uma corrente estilística, rural e fidalga.
Pela longa caminhada observo a presença da Monarquia: belas estátuas dos reis, poucos a merecerem o timbre de tiranos. Apresenta-se, fazendo sombra a Afonso Henriques, o bastardo D.João I, pai daqueles filhos sonhadores do Navegador a D.Duarte, educados por rainha inglesa que lhes incutiu o senso da universalidade.
Como em Roma, os palácios exibem o passado enquanto, divididos por pareces de madeira, dão guarida a alfaiates, sapateiros, artífices em geral.
Tudo gira em torno da exportação de vinhos que se distribuem pelo continente. O do Porto, o mais conhecido desde o Tratado de Methuen com a Inglaterra.