Leiria e Alcobaça, 21.11.74. 5ª feira.
Durante a manhã e em hora de almoço, Leiria talvez seja a cidade onde se defrontam liberais moderados e esquerdistas radicais. Há ainda conservadores de direita que se organizam em grupos, armando-se para hipótese de confronto. A movimentação define a comunidade dividida.
Visitamos o Castelo, ontem à noite iluminado por holofotes; parecia fantasma de pedra e lança sobre o centro a advertência do passado.
No começo da tarde o deixamos e chegando à Praça, assistimos a comício da Esquerda. Os comunistas por meio de células alcançam em sua maioria, mais ou menos mil jovens com cartazes e bandeiras vermelhas, nelas figurando a sinistra foice, e o martelo desapontado em face a tantas derrotas em suas aventuras.
Ao lado de palanque improvisado, erguem o braço de punho cerrado, e muito nos impressiona devido à semelhança ao clima social e político no Brasil de 1945.
Mas em Leiria há o Castelo em sua missão de observador em cada pedaço de vida. Outra oportunidade o visitarei com mais experiência.
Às duas e trinta, partimos para a Abadia de Alcobaça. Cruzamos restos de acampamentos celtas e lá visitamos as moradas neolíticas que revelavam agressões de suevos e visigodos.
Que dizer do número de furtos de pedras, arrastadas por quilômetros durante mil anos? Pouco estudados por arqueólogos, no bosque que invade ruínas. Mais acima chegamos, e encontramos algumas com vestígios de luta com os chamados bárbaros, guerreiros como nós, violentos e cruéis.
Por séculos e séculos, aqueles parques de povos ali chegados sofreriam também agressões outras não identificadas e pelo trajeto, passando por Batalha, víamos definidas centenas de casas no estilo céltico.
Só cruzamos o campo de batalha de Aljubarrota e descemos do carro para pisar nas terras de combates que confirmaram a soberania portuguesa. O Condestável ali inventou D. João 1 que com seus filhos integrou a Pátria ao Renascimento e Tempos Modernos.
Ora, as aldeias também centenárias vestem-se de passado e os carros do século XX são como instrumentos do demônio na atmosfera do século treze.
Eu indago a mim mesmo: como possível aos marujos dos descobrimentos deixar campos da planície a fim de morrerem no mar. Observemos, porém, que os comandantes, em sua maioria, vinham das serras.
Paramos na Real Abadia de Alcobaça, ligada à origem nostálgica de Portugal. No Mosteiro estão os túmulos de D. Pedro, o Crú e Dona Inês de Castro. Belas obras em estilo francês da época, danificadas grosseiramente por soldados de Junot, general de Bonaparte, que os saquearam em busca de jóias e valores.
No século anterior, a construção do Mosteiro tivera começo. Havia objetivo de defesa do solo.
Os monges labutavam como trabalhadores por séculos, edificando a Abadia. Pisamos a pedra gasta do portal, seguindo para o Jardim, intrometendo-nos nos amplos salões vazios, apenas havendo quadros dos eminentes cardeais que por lá passaram, viveram e no pátio foram enterrados. Pisamos sobre os repousos sem cerimônia, atravessamos o jardim com árvores frutíferas e de uma delas Maria da Glória colheu uma laranja já madura.
Ali funcionaram as primeiras escolas públicas, fundadas no Século XIII e entre os signatários de súplica ao Papa, estava a assinatura do Abade de Alcobaça. Os salões da cozinha e sala das refeições, tudo enorme, o que nos assusta pelo monumental. Não há como descrever aquele palácio sem imaginar centenas e centenas de frades.
Erguera-se ali a vida independente em hierarquia que zelava por extraordinária economia de subsistência.
Não havia sombra de quem quer que fosse, parecia-me ver Pedro I, o Cruel, meditando entre as colunas e decidindo onde ficariam o seu sepulcro e o de sua amada.
Ali dormimos para o retorno. Era modesta pensão de uma viúva, toda de preto que vivia com o terço como se fosse colar, em permanente oração.
Que bela experiência eu passava apenas a trinta metros da Abadia de Alcobaça.